Agressões por arma de fogo

As Agressões por Arma de Fogo foram responsáveis por 22,1% do total das internações por Causas Externas investigadas.

Os pacientes vítimas dessas agressões caracterizaram-se por serem, em sua maioria, jovens e adultos jovens, do sexo masculino (87,4%), solteiros (66,7%) e residentes em área urbana (89,7%).

A violência à qual foram submetidos os pacientes investigados apresentou características nitidamente urbanas, tendo motivações de natureza delitual paralelas, em importância, às motivações de natureza não-delitual.

Na presente pesquisa, foi muito significativa a diferença entre pacientes do sexo masculino e do sexo feminino, vítimas de Agressão por Arma de Fogo internados na Rede SARAH: os homens foram 7 vezes mais numerosos do que as mulheres.

Distribuição dos pacientes vítimas de Agressões por Arma de Fogo, segundo faixa etária na ocasião da agressão (%)

A maior incidência isolada de casos de lesões decorrentes de Agressão por Arma de Fogo ocorreu na faixa de 20 a 29 anos, sendo que a maioria (66,4% dos casos) dos pacientes foi ferida entre 20 e 39 anos, faixa etária que engloba adultos jovens. Vale ressaltar que a faixa etária de 10 a 19 anos, concentrou percentual importante, 23,0%, de pacientes envolvidos nesse tipo de lesão.

A idade que os pacientes possuíam na ocasião em que foram agredidos variou de 7 a 67 anos, tendo-se verificado a idade média de 26,8 anos (desvio padrão de 9,3 anos) na ocasião da agressão.

Lesões medulares por projétil de arma de fogo

A lesão medular por projétil de arma de fogo pode ser classificada como uma lesão direta ou indireta. Uma lesão é direta quando o projétil atravessa a medula e/ou o canal medular, causando compressão, contusão ou laceração da medula, das raízes dos nervos, com laceração ou não da duramater1. A lesão indireta pode ser consequência da formação de ondas ou ainda de fragmentos secundários, causando o dano neurológico.

A natureza e a gravidade das lesões a partir de disparos de armas de fogo dependem das características do projétil, dos obstáculos intermediários à arma e ao corpo alvejado, e da sequência e natureza de tecidos encontrados ao longo da trajetória do projétil2. São também influentes na gravidade das lesões, fatores como massa, velocidade e sentido do projétil; deformação e/ou fragmentação do projétil no interior do corpo atingido; e características do tecido atingido (tais como, elasticidade, densidade e aspectos anatômicos). Uma das determinantes da lesão por projétil de arma de fogo é a dissipação da energia cinética3 no corpo alvejado. Quanto maior é a energia cinética do projétil quando atinge o corpo, maior é seu potencial lesivo.

Relativamente ao impacto, três fenômenos afetam o tecido atingido: (1) a formação de ondas de choque; (2) a formação de uma cavidade temporária; e (3) a formação de uma cavidade permanente4.

Uma onda de choque, deslocando-se a cerca de 1400m/s (velocidade do som na água), precede o projétil em sua trajetória, podendo contribuir para o comprometimento de funções neurológicas, mesmo em locais do corpo distantes da área atingida pelo projétil5.

A partir do momento em que o alvo é impactado, a densidade do tecido atingido altera a estabilidade do projétil. A velocidade do projétil é bruscamente refreada, à medida que seu potencial destrutivo dissipa-se deslocando o tecido radialmente em relação ao trajeto. O projétil, então, costuma inclinar-se em até 90º e chega a atingir, em sua posição final, até 180º, relativamente à trajetória inicial4.

Ferimentos causados por projétil de arma de fogo

Os ferimentos, em geral, tendem a ser mais graves quanto antes o projétil inclina-se em sua trajetória pelo tecido; quando o projétil se fragmenta; quanto maior for o calibre do projétil; e quanto maior for a velocidade do projétil. O processo de rolamento do projétil aumenta significativamente sua capacidade destrutiva, pois na medida em que este se move dentro do corpo, dá-se um aumento efetivo do diâmetro da lesão. Isso explica porque um pequeno ferimento na entrada do projétil pode não revelar o significativo dano interno.

A entrada do projétil esmaga os tecidos aos quais atinge, produzindo um canal permanente no ferimento. As características dessa cavidade permanente diferem significativamente em função da arma usada no disparo, da natureza do projétil e da interação deste com o tecido atingido. Em volta dessa cavidade também se forma uma outra, de natureza temporária. A cavidade temporária é causada pela dispersão de energia nas estruturas adjacentes ao trajeto do projétil, resultando em um estiramento radial dos tecidos e na produção de um trauma localizado6. Essa cavidade atinge suas maiores dimensões em milésimos de segundos após o projétil atingir o tecido.

A cavidade temporária causada por projéteis de revólveres comuns é considerada por demais pequena para representar significativo fator lesivo para a maioria dos tecidos, excetuando-se aqueles mais sensíveis, como os do cérebro e do fígado. Projéteis de fuzis e de armas de grosso calibre, porém, frequentemente causam uma cavidade temporária maior (10-25 cm de diâmetro), podendo representar significativo fator lesivo, a depender das características do tecido atingido. Tecidos com densidades próximas à da água (como cérebro, fígado) e órgãos preenchidos por fluidos (incluindo coração, bexiga, baço ou o trato gastrointestinal) podem ser seriamente danificados se alcançados por uma cavidade temporária de grande proporção. Tecidos mais elásticos (como os músculo-esqueléticos) e tecidos elásticos de baixa densidade (como o dos pulmões) são menos afetados pela cavidade temporária4.

Caracterização das agressões

As Agressões por Arma de Fogo sofridas pelos pacientes caracterizaram-se por terem sido causadas por um único projétil (87,9%), proveniente de um disparo (53,9%). A maior parte dos pacientes foi ferida na rua (49,0%), em período noturno7 (67,5% dos casos) e entre sexta-feira e domingo (52,0%).

Distribuição dos pacientes por dia da semana em que ocorreu a agressão (%)

Verificou-se uma tendência de crescimento das ocorrências de Agressões por Arma de Fogo conforme a proximidade do final de semana. Esse crescimento iniciou-se na sexta e se acentuou no sábado e domingo. Isso sugere a possibilidade de existência de uma relação entre os tipos predominantes de situações sociais e de locais frequentados durante os finais de semana (período semanal reservado ao lazer) e os principais eventos produtores das lesões sofridas pelos pacientes investigados.

Distribuição dos pacientes por local onde se encontravam quando foram feridos (%)

 

 

Distribuição dos pacientes por tipo de disparo (%)

Os disparos de tipo intencional foram majoritários (83,0%), destacando-se como principais motivações do agente da agressão os assaltos (41,2% dos casos), brigas, discussões e desavenças (20,3% dos casos) e atentados (15,4%). A predominância dos assaltos, por sua vez, refletiu-se no destaque da categoria bandidos (38,5% dos casos) dentre os tipos de agente da agressão investigados.

 

Distribuição dos pacientes por tipo de motivação do agente da agressão (%)

 

Distribuição dos pacientes por tipo de violência (%)

A predominância dos assaltos sugere que a maior parte dos pacientes investigados foram vítimas de violências de tipo delitual (64,9%).

 

 

 

Distribuição dos pacientes por agente da agressão (%)

Em relação ao agente da agressão, a maioria dos pacientes relatou ter sido vítima de bandido, 38,5%, ou de desconhecido, 30,7%.

Em quase todas as categorias de motivação do agente da agressão, as mulheres se apresentaram numericamente inferiores aos homens. Os dados relativos ao agente da agressão também confirmam uma maior predisposição das mulheres à violência passional produzida por companheiros, nas demais categorias o percentual de pacientes do sexo masculino foi sempre muito superior ao de pacientes do sexo feminino.

Os dados obtidos parecem corroborar a conhecida vitimização da mulher frente à violência conjugal, entendida aqui de forma ampla. Esses dados sugerem, também, a possibilidade de existência de uma maior vulnerabilidade e/ou exposição dos homens à violência armada em geral, e em especial à violência interpessoal não-delitual, concentrada nos casos de brigas, discussões ou desavenças com pessoas desconhecidas, com conhecidos ou amigos.

Bibliografia

1 Cf. Benzel, e. c. et al. Civilian Gunshot Wounds to the Spinal Cord and Cauda Equina. Neurosurgery, v. 20: 1987; Cybulski, g. r. et al. Outcome of Laminectomy for Civilian Gunshot Injuries to the Terminal Spinal Cord and Cauda Equina: review of 88 cases. Neurosurgery, v. 24: 1989; Jourdon, P. et al. Spinal Cord Injuries Caused by Extraspinal Gunshot: a historical, experimental and therapeutic approach. Neurosurgery, v. 40: 1994.

2 Hollerman J.J. Gunshot Wounds: bullets, ballistics and mechanisms of injury. AJR, v. 155, Oct.: 1990.

3 A energia cinética é definida por E=1/2 mv2, onde m=massa e v=velocidade. A energia total liberada pode ser representada pela fórmula: DE = Eentrada do projétil - Esaída do projétil.

4 Cf. Farjo, L. A. & Miclau, T. Ballistics, and Mechanisms of Tissue Wounding. INJURY, v. 28 suppl. 3: 1997.

5 As diversas divergências a respeito da existência ou não de uma relação de determinação entre a formação das ondas de calor e as lesões produzidas por PAF são exaustivamente discutidas por: Farjo, L. A. & Miclau, T. Ballistics, and Mechanisms of Tissue Wounding. INJURY, v. 28 suppl. 3: 1997.

6 Amato et al afirmam que a cavidade temporária chega a ter 30 vezes o volume do projétil, não obstante tal dimensão ser severamente questionada por Fackler. Cf. Fackler, M. L. Wound Ballistics: a review of common misconceptions. JAMA, v. 259: 1988; Amato, j. j. et al. Bone as a Secondary Missile: an experimental study in the fragmenting of bone by high velocity missile. J. Trauma, v. 29: 1989.

7 Para fins analíticos foi considerado como período diurno o intervalo de 06:00 às 17:59 e como período noturno o intervalo de 18:00 às 05:59.