Holoprosencefalia
A holoprosencefalia pode resultar de múltiplos defeitos genéticos e tem sido reconhecida em vários níveis de gravidade. Em sua apresentação mais completa (holoprosencefalia alobar), o cérebro é caracterizado por uma cavidade única na linha média, rodeada por uma vesícula prosencefálica não dividida. O quadro clínico na maioria das crianças com holoprosencefalia alobar é caracterizado por anormalidades faciais da linha média. A criança vive por um período muito breve fazendo com que esta condição não seja encontrada em crianças em acompanhamento por distúrbio do desenvolvimento.
Na holoprosencefalia semilobar o cérebro é menos dismorfo e as alterações faciais são leves ou ausentes. Clinicamente, o que chama a atenção nestas crianças é micro ou hidrocefalia, epilepsia e distúrbio do desenvolvimento neuropsicomotor evoluindo para retardo mental com tônus normal ou associado a tetraplegia espástica.
Na holoprosencefalia lobar as manifestações clínicas são menos graves do que nas outras duas formas descritas. A criança geralmente apresenta atraso do desenvolvimento psicomotor leve ou moderado, disfunção hipotálamo-hipofisária ou problemas visuais. É difícil classificar uma holoprosencefalia como semilobar ou lobar.
Desordens de Migração Neuronal
Migração neuronal é o processo pelo qual os neurônios se deslocam de seu local de origem para seu local permanente no cérebro em desenvolvimento. As desordens de migração neuronal são, portanto, um grupo de desordens decorrentes da impossibilidade dos neuroblastos da zona periventricular (matrix germinal) que formam as paredes dos ventrículos laterais chegarem ao seu destino (córtex cerebral) por causa de fatores agressivos ocorridos entre 1 a 7 meses de gestação, resultando em deformidades estruturais focais ou generalizadas dos hemisférios cerebrais.
As desordens de migração neuronal incluem: esquizencefalia, lissencefalia, polimicrogiria, heterotopias neuronais e para muitos, agenesia de corpo caloso. As manifestações clínicas destas desordens incluem atraso do desenvolvimento psicomotor, hipotonia ou espasticidade, retardo mental, epilepsia e microcefalia. Uma série de defeitos de genes ou alterações bioquímicas já foram relatadas nos diversos tipos de desordem de migração neuronal, mas estas desordens podem ser causadas também por infecções, intoxicações e radiações.
Esquizencefalia
Depois da malformação Arnold-Chiari II, a esquizencefalia é a malformação mais freqüentemente atendida no SARAH. A esquizencefalia é caracterizada por fenda unilateral ou bilateral localizadas dentro dos hemisférios cerebrais estendendo-se do córtex à região periventricular. A fenda pode ser fundida ou não. Pode ser de origem genética ou adquirida. O quadro clínico da esquizencefalia é bastante variado. Crianças com fendas nos dois hemisférios cerebrais comumente apresentam tretraplegia espástica ou hipotonia com sinais de liberação piramidal e retardo mental. Quando a fenda é unilateral observa-se hemiplegia espástica e a inteligência pode ser normal. A maioria das crianças têm epilepsia, muitas vezes de difícil controle. A gravidade dos sintomas está relacionada ao grau de envolvimento do cérebro.
Lissencefalia
A lissencefalia é um defeito de migração neuronal decorrente de uma agressão ao sistema nervoso ocorrido entre 12 a 16 semanas. Na lissencefalia as circunvoluções cerebrais são ausentes (cérebro liso). Clinicamente, a criança com esta malformação cerebral apresenta distúrbio do desenvolvimento grave, hipotonia ao nascimento que pode evoluir para hipertonia com sinais de liberação piramidal, epilepsia e microcefalia.
Heterotopias Neuronais
As heterotopias de substância cinzenta são grupos de corpos celulares (dos neurônios) em locais anormais devido a uma parada da migração dos neurônios. As crianças com heterotopia subcortical focal apresentam epilepsia e alterações motoras e cognitivas com níveis variáveis de gravidade dependendo do tamanho da heterotopia.
Malformações do Desenvolvimento Cortical
Assim que os neurônios alcançam a placa cortical, outros estágios do desenvolvimento se sucedem antes que a maturidade seja atingida. A diferenciação neuronal tem início em fases muito precoces na matrix germinal e continua mesmo depois de terminada a migração dos neurônios. As malformações do desenvolvimento cortical têm sido cada vez mais reconhecidas como causas importantes de distúrbio do desenvolvimento e epilepsia.
Displasia Cortical
Existe um amplo espectro de anomalias com diferentes níveis de gravidade classificadas como displasia cortical. O tempo de origem no desenvolvimento é incerto. A presença de heterotopias neuronais subjacentes podem indicar origem antes de 20 semanas de gestação, mas algumas formas de displasia cortical podem ser adquiridas mais tarde. As displasias corticais estão relacionadas com epilepsia intratável e são freqüentemente identificadas pela ressonância magnética. A forma mais leve de displasia é a microdisgenesia, que somente é reconhecidada através da microscopia.
Polimicrogiria
A polimicrogiria é uma das malformações corticais mais freqüentes. Caracteriza-se por um número excessivo de giros pequenos e laminação cortical anormal. Esta malformação resulta de uma agressão ao sistema nervoso ocorrida antes da 5ª semana de gestação e embora fatores ambientais como síndrome hipóxico-isquêmica intra-uterina (hipóxia), ou infecções congênitas têm sido implicadas na patogênese de algumas formas de polimicrogiria, para outras, um locus genético específico já foi identificado. A patogênese da microgiria não é ainda bem conhecida. Ela é freqüentemente classificada como um erro da migração neuronal, mas provavelmente representa uma interrupção da maturação cortical tardia.
O quadro clínico na polimicrogiria é retardo mental grave associado com espasticidade ou hipotonia generalizada com reflexos profundos exaltados (paralisia cerebral do tipo hipotônica).
Anomalias de Corpo Caloso
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Figura 1: Corpo Caloso |
Figura 2: Ausência de corpo caloso |
O corpo caloso é formado pelo rostro (extremidade anterior), joelho, tronco e esplênio (extremidade posterior) e se desenvolve entre a 10ª e 25ª semana de gestação (Figura 1). Seu papel é conectar áreas neocorticais, participando da informação que transita entre os dois hemisférios. Para entender as anomalias do corpo caloso é preciso conhecer um pouco do seu desenvolvimento. Ele não se forma todo ao mesmo tempo. A parte anterior do joelho forma-se aproximadamente na mesma época que a parte posterior do tronco, e o rostro forma-se por último, um pouco depois do esplênio (extremidade posterior). Por isto, a hipogenesia, geralmente, se manifesta pela presença do tronco e do joelho, e ausência do esplênio e do rostro. Quando o tronco e o joelho do corpo caloso estão ausentes e o esplênio e o rostro presentes o mais provável é que a lesão seja destrutiva. As anomalias de corpo caloso são relativamente freqüentes nas crianças com distúrbio do desenvolvimento e a agenesia pode acompanhar as alterações que caracterizam a Síndrome de Aicardi (condição só observada em meninas que evolui com retardo mental grave e crises tônico-clônicas e mioclônicas generalizadas com início antes do 4º. mês).
A agenesia do corpo caloso, raramente é um defeito isolado (Figura 2). Ela é freqüentemente associada a outras malformações do sistema nervoso central e pode ser observada em infecções virais intra-uterinas, em vários defeitos cromossômicos, especialmente 11, 13, 15, 18 e X e em erros inatos do metabolismo. Quando a agenesia do corpo caloso constitui um achado isolado, a criança pode não apresentar alterações neurológicas, mas esta condição é rara. Mais freqüentemente, a malformação vem acompanhada de alterações neurológicas que variam de leves a graves, e caracterizam-se por distúrbio do desenvolvimento psicomotor, retardo mental, epilepsia e distúrbios do comportamento.
