Introdução
As miopatias congênitas
são doenças musculares que se apresentam ao
nascimento decorrentes de defeitos em genes que codificam
proteínas musculares. A perda ou disfunção
dessas proteínas leva ao aparecimento de características
morfológicas específicas nos músculos,
que podem ser observadas em estudos ao microscópio
(biópsia).
As miopatias congênitas
são classificadas de acordo com essas características
morfológicas. Por exemplo, se observamos na biópsia
uma área central clara (sem atividade oxidativa) no
tecido muscular corado por um corante especial, a miopatia
congênita é do tipo central core).
Características Gerais
Suspeita-se do diagnóstico de miopatia
congênita diante de um recém-nascido hipotônico
(flácido), com dificuldade para sugar, para respirar
e fraqueza muscular generalizada. Pode haver relato de movimentos
fetais diminuídos e aumento do líquido amniótico.
Esse diagnóstico pode ser também pensado nos
casos de atraso nas aquisições motoras (segurar
a cabeça, sentar, andar), principalmente se associado
a hipotonia no período neonatal.
Algumas manifestações clínicas
como ptose palpebral (pálpebra superior caída),
rosto alongado, micrognatia (maxilar inferior pequeno), fraqueza
da musculatura facial, palato ogival (céu da boca elevado),
músculos pouco desenvolvidos, presença de deformidades
esqueléticas, como luxação congênita
de quadril, pé torto ao nascer e artrogripose (deformidades
articulares múltiplas presentes ao nascimento), sugerem
o diagnóstico de miopatia congênita.
Contudo, existem casos de miopatia congênita
com manifestações clínicas iniciadas
somente na idade adulta com fraqueza muscular proximal.
Incidência
A incidência das miopatias congênitas
é desconhecida. Em uma série de crianças
que apresentaram hipotonia neonatal e que foram submetidas
a biópsia muscular antes de dois meses de vida, as
miopatias congênitas foram encontradas em 14%.
A freqüência de cada tipo de miopatia
congênita é variada. Em uma série de 180
casos reunidos ao longo de 20 anos, observou-se a seguinte
distribuição: miopatia nemalínica (20%),
central core (16%), centronuclear (14), multicore (10%), desproporção
por tipo de fibras (21%) e miscelânea (19%).
Hereditariedade
As miopatias congênitas são
hereditárias e em geral, apresentam herança
autossômica dominante (basta que um dos pais seja portador
do gene) e passam de pai ou mãe para filho, independente
do sexo, com risco de ocorrência igual a 50% em cada
gestação; ou autossômica recessiva com
pais sadios (a doença se manifesta com o encontro de
dois genes para a doença, um do pai e outro da mãe)
com risco de ocorrência igual a 25% em cada gestação.
Em algumas miopatias congênitas, como
na central core, já se conhece o defeito genético.
Nesse tipo de miopatia, em cerca de 50% dos casos encontra-se
uma mutação em um gene do cromossomo 19.
Existem também miopatias congênitas,
como a nemalínica, que podem apresentar diferentes
tipos de herança associadas a diferentes mutações
em proteínas musculares distintas.
Prognóstico
Na
verdade, é bastante variado. Existem algumas miopatias
congênitas, como a centronuclear, que tem forma
de apresentação neonatal mais grave e evolui
com insuficiência respiratória precoce no primeiro
ano de vida, e formas que se apresentam na infância
ou mesmo na idade adulta, com fraqueza muscular de predomínio
proximal, progressão lenta, com marcha independente
até a 5ª ou 6ª década.
É importante lembrar que as miopatias
congênitas podem estar associadas a cardiomiopatia (doença
do músculo do coração) e a hipertermia
maligna. A hipertermia maligna está associada principalmente
à miopatia tipo central core. Ela se caracteriza por
elevação rápida e incontrolável
da temperatura corporal (que pode atingir valores tão
elevados quanto 44ºC), associada à contratura
muscular difusa, cianose (pele azulada por diminuição
da oxigenação dos tecidos), acidose e freqüência
cardíaca elevada. Seguem-se mioglobinúria (eliminação
urinária de mioglobulina, pigmento protéico
do músculo), hiperpotassemia, insuficiência renal,
arritmia cardíaca e hipotensão arterial. A hipertermia
maligna é geralmente desencadeada por exposição
a agentes anestésicos.
Diagnóstico
A biópsia muscular com realização
de estudos de histoquímica e microscopia eletrônica
é fundamental. É importante lembrar, que algumas
características morfológicas só se tornam
evidentes com a idade. Pode-se encontrar apenas predomínio
de fibras do tipo I (achado comum, mas inespecífico
nas miopatias congênitas) no estudo do músculo
de um bebê e a presença de cores centrais no
músculo do progenitor comprometido.
Outros exames que auxiliam o diagnóstico
são a dosagem de enzimas musculares (ligeiramente elevadas
ou normais) e a eletroneuromiografia (exame que mede a atividade
elétrica do músculo). O estudo genético
não está ainda disponível na prática
clínica.
Principais Miopatias Congênitas
Miopatia Tipo
Central Core
Genética
Herança autossômica
dominante com penetrância variável. Em cerca
de 80% dos casos, a miopatia tipo central core está
relacionada a mutações em geral localizadas
no braço longo do cromossomo 19. Mutações
no mesmo gene foram também associadas a outros tipos
de miopatia congênita (com cores e rods, central core
e hipertermia maligna, e central core com corpos de inclusão
tipo impressões digitais).
Manifestações clínicas
Formas neonatais: hipotonia, atraso nas aquisições,
fraqueza difusa, com acometimento facial discreto, ausência
dos reflexos profundos. Formas tardias: graus variáveis
de fraqueza muscular proximal, podendo a pessoa com este tipo
de problema referir cãimbras e intolerância aos
esforços. As enzimas musculares são normais
ou pouco elevadas.
Eletroneuromiografia
Pode ser normal ou demonstrar padrão
miopático ou neurogênico.
Biópsia Muscular
A microscopia óptica
(microscópio comum) demonstra estrutura geral do músculo
preservada e áreas arredondadas bem delimitadas, com
falta de atividade enzimática oxidativa, que se estendem
por quase toda a extensão da fibra muscular do tipo
I. Microscopia eletrônica: ausência de mitocôndrias
(organelas citoplasmáticas que produzem energia para
a célula através de respiração
celular), diminuição do volume do sarcoplasma
(citoplasma da fibra muscular estriada), irregularidades da
linha Z (banda escura de uma fibra muscular estriada que marca
a junção dos filamentos de actina adjacentes
aos sarcômeros).
Miopatia Nemalínica
Genética
Heterogeneidade genética (vários
tipos de herança). A miopatia nemalínica está
relacionada a várias mutações relacionadas
a genes localizados nos cromossomos 21, 9 e 19.
Manifestações clínicas
Forma neonatal: movimentos fetais
diminuídos, polihidrâmnio (aumento do líquido
amniótico), hipotonia, insuficiência respiratória,
fraqueza facial e deformidades articulares presentes ao nascimento.
Forma infantil clássica: hipotonia, atraso
do desenvolvimento motor, face alongada e inexpressiva, ptose
palpebral (pálpebra caída), céu da boca
alto, escoliose (desvio lateral da coluna), retração
dos tendões e raramente cardiomiopatia (doença
do músculo do coração). Forma adulta:
insuficiência respiratória por fraqueza do diafragma
(músculo que divide o tórax do abdome e participa
na respiração) e alterações ortopédicas).
Forma benigna : fraqueza muscular difusa.
Biópsia Muscular
Microscopia óptica: presença
de bastões (rods) subsarcolemais, intermiofibrilares
ou intranucleares. Os bastões são estruturas
vermelhas, brilhantes e alongadas no Gomori (corante). Estão
presentes em fibras do tipo I ou em ambos os tipos. A quantidade
de bastões pode variar em diferentes músculos
e não se relaciona com a gravidade do quadro clínico.
Microscopia eletrônica: estrutura densa que se prolonga
com miofibrilas e linhas Z.
Miopatia Centronuclear
Herança
Autossômica dominante.
Manifestações Clínicas
Oftalmoparesia (paralisia ocular parcial)
hipertrofia de panturrilhas, alterações cognitivas
e dor.
Eletroneuromiografia
Descargas pseudomiotônicas (que têm
início e término abrupto no traçado).
Biópsia muscular
Centralização nuclear (35 a
90% das fibras), em geral núcleos únicos, raramente
múltiplos, tamanho da fibra próximo ao normal,
citoplasma perinuclear pouco abundante, disposição
radiada.
Miopatia Miotubular
Genética
Mutação no cromossomo 28. Existem
cerca de 141 mutações descritas.
Manifestações Clínicas
Forma
neonatal grave: polihidrâmnio, óbito neonatal,
hipotonia grave, poucos movimentos, luxação
de quadril, oftalmoparesia, fraqueza facial. Pode haver complicações
hepáticas, endócrinas e hematológicas
(esferocitose). Heterozigotas podem ser assintomáticas
ou apresentarem fraqueza muscular de cinturas (pélvica
e escapular), fraqueza facial, disartria e cifoescoliose.
Biópsia Muscular
Fibras musculares imaturas, pequenas, arredondadas,
com grande núcleo central. Concentração
central de atividade oxidativa, com halo claro entre o núcleo
e a periferia.
Desproporção
por Tipo de Fibras
Herança
Não definida
Manifestações Clínicas
Hipotonia, atraso do desenvolvimento motor,
face alongada e alterações ortopédicas
múltipas precoces e graves. A doença não
é progressiva.
Biópsia Muscular
Existem dois tipos de fibras esqueléticas
(fibras que formam os músculos): fibras caracterizadas
por tempo de contração lento (Tipo I) e por
tempo de contração rápido (Tipo II).
Na desproporção por tipo de fibras existe predomínio
de fibras do tipo I (80%).
Mini-multicores
Herança
Autossômica recessiva
Formas
Precoces e tardias.
Manifestações clínicas
Estudos de séries de casos demonstraram
quatro tipos diferentes:
| a |
Fraqueza axial, escoliose, insuficiência
respiratória, frouxidão dos ligamentos e
miopia. |
| b |
Oftalmoparesia (paralisia incompleta do olho), fraqueza
facial grave e fraqueza muscular generalizada. |
| c |
Início precoce (com deformidades articulares
múltiplas presentes ao nascimento). |
| d |
Fraqueza lentamente progressiva com atrofia das mãos,
envolvimento faringolaríngeo e falta de controle
cervical. Cifoescoliose (desvio da coluna) e miocardiopatia.
Progressão lenta ou estável. |
Biópsia Muscular
Microscopia óptica (microscópio
comum): múltiplas áreas pouco coradas, com extensão
longitudinal por parte da fibra. Compromete fibras do tipo
I e do tipo II. Microscopia eletrônica: áreas
sem mitocôndrias, desestruturação das
miofibrilas e estriações das estrias Z.
Existem várias outras miopatias
congênitas mais raras, por vezes descritas em famílias
isoladas.