Introdução
Paralisia braquial obstétrica
(PBO) é uma paralisia do membro superior que pode ocorrer
com a criança no momento do parto. Ela é devida
a lesão do plexo braquial (nervos responsáveis
pelo movimento e sensibilidade das mãos, dos braços
e dos dedos) e é, geralmente, atribuída a tração
da cabeça e do pescoço durante a liberação
dos ombros na apresentação cefálica ou
a tração sobre os braços estendidos acima
da cabeça na apresentação pélvica.
Um ou dois em cada 1000 recém-nascidos têm esta
condição.
Anatomia do Plexo Braquial
O plexo braquial é
formado pela união das raízes ventrais de C5
a T1 (segmentos medulares). Os ramos de C5 e C6 formam o tronco
superior, os ramos de C8 e T1 formam o tronco inferior e o
ramo de C7 o tronco médio. As divisões anteriores
dos troncos superior e médio dão origem ao fascículo
lateral. O fascículo medial é formado pela divisão
anterior do tronco inferior e a divisão posterior dos
três troncos forma o fascículo posterior. Dos
fascículos emergem os nervos que inervam os músculos
do membro superior.
Classificação
A PBO é classificada
em paralisia alta (Erb-Duchenne), baixa (Klumpke) e completa
(Tabela 1). Erb-Duchenne é a forma mais comum (80%
a 90% dos casos) e tem melhor prognóstico. A forma
Klumpke é rara (5% ou menos), tem pior prognóstico
e tem sido relacionada com uma forma completa que evoluiu
com recuperação rápida da porção
alta do plexo braquial, anomalias congênitas (costela,
tendão ou vaso sangüíneo) comprimindo o
plexo ou lesão medular.
|
Tabela 1. Classificação
da Paralisia Braquial Obstétrica |
| Tipo |
Raízes |
Manifestações
|
Erb-
Duchenne
(paralisia alta) |
C5
a C7 |
Braço
acometido sem movimento, ao lado do corpo, com o ombro
rodado internamente, cotovelo estendido e punho ligeiramente
fletido
Perda da abdução e da rotação
externa do braço
Incapacidade para a flexão do cotovelo e supinação
do antebraço
Ausência do reflexo bicipital e de Moro no lado
acometido
Preservação da força do antebraço
e da capacidade de preensão da mão
Possibilidade de deficiência sensorial na face externa
do braço, antebraço, polegar e indicador |
Klumpke
(paralisia baixa |
C8
e T1 |
Flexão
do cotovelo e supinação do antebraço
Acometimento dos músculos da mão com ausência
do reflexo de preensão palmar
Reflexo bicipital e radial presentes
Síndrome de Horner (ptose palpebral, enoftalmia,
miose, e anidrose facial) quando há envolvimento
das fibras simpáticas cervicais e dos primeiros
nervos espinhais torácicos |
| Completa |
C5
a T1 |
Membro
superior acometido flácido com todos os reflexos
ausentes |
Lesões Associadas
Toda criança
com PBO deve ser investigada quanto à presença
de lesões associadas como fraturas (úmero, clavícula
ou parietal), paralisia de nervo frênico (nervo que
inerva o diafrágma) ou facial, ruptura ou hemorragia
de esternocleidomastóideo (músculo do pescoço)
e lesão cerebral.
Fatores de Risco
Os
principais fatores de risco para PBO são: recém-nascido
grande para a idade gestacional, apresentações
fetais anormais, parto prolongado, baixa estatura materna,
líquido amniótico com volume diminuído
e crânio volumoso.
Prevenção
O reconhecimento de
bebês macrossômicos (grandes) através da
ultrassonografia facilita a decisão de indução
precoce do trabalho de parto em mães diabéticas
(causa freqüente de feto grande para a idade gestacional)
ou a indicação de cesariana para os casos de
alto risco.
Diagnóstico Clínico
O exame físico inclui avaliação
da mobilidade articular, da força muscular, da preensão
palmar, do reflexo de Moro, dos reflexos tendinosos e da sensibilidade.
O diagnóstico é geralmente evidente ao nascimento
e os achados variam de acordo com as raízes envolvidas
(Tabela 1) e (Figura 1 e 2). Pode haver
dor nas duas primeiras semanas por causa do trauma no parto.
Figura 1:

Tipo Erb-Duchenne
|
| Figura 2:

Tipo Klumpke
|
Prognóstico
Pode ocorrer desde um discreto edema de uma
das raízes até avulsão completa de todo
o plexo (arrancamento). Não havendo ruptura grave de
raízes, espera-se melhora importante dentro dos três
primeiros meses e recuperação entre o 6o. e
12o. mês (75% a 80% dos casos). Contração
do bíceps (músculo que faz a flexão do
cotovelo) antes de seis meses é sinal de bom prognóstico.
Em algumas crianças não se
observa qualquer sinal de melhora nos primeiros seis meses.
Estas crianças evoluem com paralisia persistente, atrofia
muscular e contraturas articulares com considerável
prejuízo da função que pode resultar
em vários níveis de dificuldade com incapacidade
para a realização de determinadas atividades.
Exames Complementares
Estudos radiológicos podem ser indicados
com o objetivo de afastar a possibilidade de fratura de clavícula
ou extremidade proximal do úmero.
A eletroneuromiografia
(exame que estuda a atividade elétrica dos músculos
e dos nervos) pode estar indicada principalmente nos três
primeiros meses, objetivando localizar a lesão e definir
o grau de envolvimento dos nervos.
Tratamento
O tratamento da criança com PBO deve
ter início o mais precocemente possível. Mesmo
com dias de vida já é possível iniciar
movimentos passivos suaves e orientações quanto
ao posicionamento da criança.
Posicionamento
Quando a criança estiver deitada, é
importante que o membro superior comprometido se mantenha
em discreta abdução (afastado do corpo). A criança
pode também ser colocada deitada sobre o lado envolvido,
sendo esta posição benéfica em termos
de estimulação sensorial. Caso a criança
demonstre tendência em ficar com a face voltada para
o lado contrário ao membro comprometido, deve-se posicioná-la
também com a face voltada para o outro lado e estimulá-la
com brinquedos para que ela vire ativamente a cabeça
para ambos os lados.
Mobilização passiva
suave
A família pode ser orientada e treinada para
a realização de exercícios passivos de
maneira suave e cuidadosa para manter as amplitudes articulares
livres. Caso a criança chore, ela está sentindo
dor. Os exercícios devem então ser realizados
mais lentamente e os pais reorientados pelo fisioterapeuta.
Estimulação ativa dos
movimentos.
Feita inicialmente através do posicionamento
da criança em decúbito dorsal, de lado, e abdome
para baixo, associado a estímulos para alcançar
brinquedos leves e coloridos, em todas as direções.
À medida que a criança for se desenvolvendo,
deve-se oferecer brinquedos de diferentes formas e tamanhos
para estimular a preensão e os movimentos do braço
em todas as posições, inclusive quando estiver
sentada. Brincadeiras com água, na banheira, estimulam
os movimentos ativos.
Proteção para evitar
maiores estiramentos
Através do uso de um alfinete de proteção
prendendo a manga do membro superior comprometido à
blusa, mantendo o braço em adução de
ombro (junto ao corpo) e flexão de cotovelo. Utilizada
apenas quando a criança for sair de casa, para evitar
movimentos bruscos do braço flácido e com poucos
movimentos.
Estimulação sensorial
Através de estímulos utilizando materiais
diferentes em contato com a pele do membro envolvido (como
por exemplo espuma, toalha, algodão e escova de bebê).
Pode ser colocada também uma pulseirinha no punho do
lado acometido para que a criança toque a pulseirinha
com a outra mão estimulando a percepção
do braço.
Estimulação do desenvolvimento
motor
Estimulação das etapas do desenvolvimento
(rolar, sentar, engatinhar). Todas as crianças com
PBO adquirem a marcha e, se esta aquisição for
alcançada um pouco mais tarde, melhor será a
estimulação dos braços. A criança
deve ser incentivada a engatinhar para que ela apoie e movimente
o braço envolvido e a família deve ser orientada
a não estimular a marcha precocemente. Na posição
sentada deve ser estimulado o apoio do braço acometido
no chão através do alcance de brinquedos oferecidos
à outra mão.
Hidroterapia
Após a criança adquirir controle cervical
ela está apta a iniciar exercícios na piscina.
Estes exercícios são os mais indicados para
a criança com PBO, pois com atividades recreativas
ela poderá movimentar todos os músculos que
tiverem alguma função.
Órteses
Se, durante o tratamento, forem verificados encurtamentos
nos músculos flexores dos dedos da mão, há
indicação para o uso de órtese quando
a criança estiver dormindo e assim não comprometer
a função durante as atividades.
O que determina a
melhora dos movimentos não é a quantidade ou
freqüência dos exercícios e sim o grau e
a extensão da lesão dos nervos envolvidos. Após
sete meses de idade, os movimentos que não estiverem
presentes provavelmente não vão se recuperar.
O comprometimento pode variar desde uma discreta fraqueza
à ausência completa de movimento em todo o braço.
Após um ano de idade, os exercícios em piscina
e atividades próprias da idade substituem a realização
dos movimentos passivos visando estimular ativamente os movimentos
funcionais.
Para as crianças que não apresentam
nenhuma melhora nos primeiros seis meses o tratamento cirúrgico
(transferência ou enxerto de nervo) é considerado
por algumas equipes que tratam PBO.
