Introdução
O nervo facial é formado por duas
raízes que seguem juntas por longo trajeto dentro do
cânio: a) o nervo facial propriamente dito, que corresponde
à raiz motora responsável pela inervação
dos músculos da mímica facial e do músculo
estapédio (relacionado com a audição);
e b) o nervo intermediário de Wrisberg, que é
composto por fibras sensitivas somáticas (controlam
a sensibilidade de parte do pavilhão auricular), fibras
sensitivas especiais (controlam a gustação dos
dois terços anteriores da língua) e fibras do
sistema nervoso autônomo (controlam as glândulas
lacrimais e salivares).
Uma lesão do nervo facial manifesta-se
por paralisia dos músculos da mímica facial
em uma hemiface com incapacidade para enrugar a fronte, fechar
completamente o olho, sorrir, bochechar, assoviar. Observa-se,
ainda, desvio da comissura labial para o lado contrário
à lesão, apagamento dos sulcos da hemiface comprometida
e lacrimejamento contínuo. Na dependência do
local da lesão do nervo facial, alterações
da gustação, audição (os sons
parecem mais altos no lado comprometido), e salivação
podem ser encontradas.
As lesões do
nervo facial podem ser congênitas ou adquiridas. A Tabela
1 demonstra exemplos de causas de paralisia facial periférica.
A paralisia de Bell, ou paralisia facial idiopática
(cuja causa é desconhecida), é a mais freqüente.
| Tabela 1. Causas
de Paralisia Facial Periférica |
Congênita |
| Anomalia congênita |
| Traumatismo neonatal |
Infecciosa |
| Otite média
aguda |
| Otite média
crônica - mastoidite |
| Síndrome
de Ramsay-Hunt |
| Parotidite |
| Mononucleose infecciosa |
Tumoral |
| Neuroma do nervo
facial |
| Neuroma acústico |
| Tumor de parótida |
Traumática |
| Fratura da base
do crânio |
| Laceração
facial |
| Fratura de mandíbula |
| Idiopática
|
| Paralisia de Bell |
| Síndrome
de Melkerson-Rosenthal |
Paralisia de BELL
Incidência
Estimada em 15-40
casos novos/100 000 habitantes/ano. O número de casos
aumenta com a idade. Quanto ao sexo, entre 10 e 20 anos é
mais comum no sexo feminino e, após os 40 anos, mais
comum no sexo masculino.
Causa
Não se conhece bem a causa, mas acredita-se
que possa estar relacionada com uma infecção
viral do nervo facial.
Fatores de Risco
Gestantes e diabéticos apresentam
risco aumentado para paralisia de Bell. Cerca de 10% dos pacientes
têm história familiar positiva.
Evolução
O início é
súbito e a doença progride durante os primeiros
14 dias, sendo que o déficit máximo é
atingido nos quatro primeiros dias. Referência de dor
atrás da orelha ou na frente da orelha no início
do quadro é freqüente. Algumas pessoas referem
sensação de dormência na hemiface comprometida.
A paralisia facial é unilateral na maioria das vezes,
mas, em 10 por cento dos casos, é bilateral. Em 60
por cento a 80 por cento, a recuperação é
completa e, em sete por cento dos casos, a paralisia facial
é recorrente.
Prognóstico
Menor idade, fraqueza incompleta dos músculos
acometidos, início da recuperação entre
10 e 21 dias e ausência de doenças sistêmicas
(como diabetes) são fatores que favorecem um bom prognóstico
(recuperação completa).
Diagnóstico
O diagnóstico
é baseado em critérios clínicos. Deve-se
pesquisar história de trauma, infecções
do ouvido, cirurgia otológica ou na glândula
parótida. A presença de sinais de envolvimento
de vias centrais como hemiparesia (dificuldade de movimento
em um lado do corpo), ataxia (déficit de equilíbrio
e incoordenação), comprometimento de outros
nervos cranianos ou o achado de vesículas no pavilhão
auricular ou cavidade oral remete a outros diagnósticos.
Exames Complementares
Os pacientes que apresentam
perda auditiva neurossensorial nas fases iniciais ou aqueles
que não mostram sinais de recuperação
em três meses devem ser submetidos a estudo por ressonância
magnética ou tomografia computadorizada de crânio.
Tratamento
O tratamento da paralisia
de Bell não está estabelecido, mas estudos sugerem
que, em pacientes adultos, o uso de corticosteróides
associado a aciclovir está relacionado com melhor recuperação
funcional. Este tratamento deve ser instituído nos
primeiros sete dias do quadro, sendo os melhores resultados
observados quando iniciado até o 4° dia.
Medidas preventivas para lesão de
córnea, como uso de colírios (lágrima
artificial) para evitar ressecamento do olho e aplicações
de pomadas oftálmicas apropriadas à noite com
oclusão do olho acometido são fundamentais.
Em caso de dor ocular ou sinais de irritação
está indicada uma avaliação oftalmológica
de urgência para afastar úlcera de córnea.
O real valor da fisioterapia pode não
ter sido demonstrado em vários estudos, mas parece
ter efeito benéfico no sentido de evitar deformidades
e manter a flexibilidade e a elasticidade muscular durante
o período de paralisia. Exercícios específicos
podem ser indicados quando se observa esboço de movimento
da musculatura envolvida. Eles não interferem na velocidade
de recuperação, mas podem melhorar a função.
A Figura 1 demonstra exemplos de exercícios faciais
que podem ser feitos enquanto durar a paralisia. O uso de
órtese (buco-auricular) pode, também, ser medida
auxiliar na prevenção de contraturas da musculatura.
Quanto à eletroestimulação, não
existe comprovação científica de sua
eficácia como método de tratamento.
Seqüelas
Em casos com
recuperação incompleta, podemos encontrar
os seguintes sinais residuais: fraqueza da musculatura da
mímica facial (30%), contraturas com acentuação
de sulcos (20%), sincinesias (movimentos involuntários
que ocorrem num grupo de músculos quando outro se
contrai voluntariamente) e lágrimas de crocodilo
decorrentes de reinervação anômala (50%
e 6% respectivamente).
Síndrome de Ramsay-Hunt
Paralisia facial periférica acompanhada
pela presença de vesículas avermelhadas no
pavilhão auricular (zoster ótico) ou na cavidade
oral (território de inervação sensitiva
do nervo facial), decorrente de reativação
de infecção pelo vírus varicela-zoster.
Características Clínicas
A paralisia facial da síndrome de
Ramsay-Hunt é mais grave e de pior prognóstico
do que a paralisia facial de Bell. O acometimento de outros
nervos cranianos pode ser encontrado e as principais manifestações
clínicas associadas são vertigem, diminuição
da audição, zumbidos, náuseas, vômitos
e nistagmo (movimentos involuntários do globo ocular).
Em 14 por cento
dos casos, as vesículas surgem após instalada
a paralisia facial periférica, dificultando o diagnóstico.
Existem casos de paralisia facial associada a varicela-zoster,
nos quais as vesículas características não
estão presentes ‘zoster-herpete’.
Diagnóstico Laboratorial
O diagnóstico dos casos sem vesículas
pode ser estabelecido pela presença do DNA do vírus
varicela-zoster (VVZ), identificado pelo método PCR
(reação de cadeia de polimerase), em amostras
de saliva ou da pele da orelha, pela presença de
anticorpos IgM anti-VVZ ou, ainda, elevação
dos títulos de anticorpos IgG.
Tratamento
O tratamento com prednisona e aciclovir
está associado com melhor recuperação
funcional, principalmente se iniciado nos primeiros três
dias.
