Introdução
As doenças genéticas,
embora raras se analisadas individualmente, tornam-se relativamente
freqüentes, em seu conjunto, se somarmos a incidência
dos quase 8000 traços gênicos, as anomalias cromossômicas
e as doenças multifatoriais. As malformações
congênitas, que podem ou não ter etiologia genética,
acometem cerca de 3 a 4 por cento dos nascidos vivos. Calcula-se
que 5/1000 crianças morrem no primeiro ano de vida por
doenças de causa genética, as quais são
mais graves e requerem investigação mais elaborada.
À medida que diminui a mortalidade infantil por desnutrição
ou doenças infecciosas em um país, as doenças
genéticas passam a ter participação crescente
na morbidade e mortalidade desse grupo. Para ilustrar esse fato,
imaginemos um país que tenha o índice de mortalidade
infantil de 80/1000 nascidos vivos. Cerca de 6 por cento dos
óbitos em crianças menores de um ano de idade
serão devidos a patologias hereditárias. Se este
índice diminuir para 50/1000 nascidos vivos, a contribuição
das doenças genéticas aumentará de 6 por
cento para 10 por cento do total. Assim, não só
no Brasil, mas em todos os países empenhados na diminuição
da mortalidade infantil, é importante que os clínicos
estejam preparados para reconhecer as doenças genéticas,
que, cada vez mais, farão parte da rotina dos profissionais
de saúde.
Esta seção não tem a pretensão
de esgotar as hipóteses diagnósticas possíveis
em uma criança com suspeita de doença genética.
Nosso objetivo é orientar o profissional no raciocínio
clínico e no direcionamento adequado da investigação
laboratorial. Assim, partimos da análise clínica
do fenótipo do paciente e da história gestacional
e familiar. Nunca é muito lembrar que determinados quadros
são evolutivos e que a ausência de uma dada característica
num certo momento não pode ser usada para exclusão
do diagnóstico. Diante da inespecificidade de apresentação
de muitas doenças genéticas, notadamente os erros
inatos do metabolismo, o laboratório desempenha papel
fundamental na elucidação do diagnóstico.
Frente a um paciente
em que se suspeita anomalia de origem genética, o primeiro
aspecto a ser determinado é se o paciente apresenta um
quadro dismórfico, uma alteração funcional
(atraso do desenvolvimento psicomotor, regressão neurológica,
convulsões), ou um quadro misto.
Quadros Clínicos de Apresentação
ao Nascimento
As patologias que se apresentam como defeito
único, como palato fendido e defeitos do tubo neural
(malformações), pé torto congênito
e luxação congênita de quadril (deformações)
e amputação parcial ou total de membros por bridas
amnióticas (disrupção) não
requerem exames laboratoriais para seu diagnóstico, que
é feito únicamente pela avaliação
do fenótipo. Essas patologias, geralmente, são
de herança multifatorial e o risco de recorrência
em irmãos é baixo, o que é tranquilizador
para os pais.
Pacientes com malformações
múltiplas exigem história clínica detalhada
quanto ao período gestacional para identificar fatores
de risco, exame físico cuidadoso e a verificação
se há ou não retardo mental associado. As malformações
múltiplas podem ser decorrentes de cromossomopatias (6,1%
dos casos), de mutações gênicas que obedecem
a padrões de herança mendeliana - genes dominantes
ou recessivos (7,5% dos pacientes), de origem ambiental (6,5%)
ou de origem multifatorial (20%). Cumpre lembrar que a porcentagem
de malformações congênitas onde não
se identifica a etiologia é alta, em torno de 60 por
cento dos casos.
Nas anomalias cromossômicas
que são identificadas através da análise
do cariótipo, os achados clínicos variam consideravelmente,
dependendo do cromossomo e do tamanho do segmento envolvido,
mas incluem, freqüentemente, retardo do crescimento, retardo
mental e anomalias somáticas específicas. Enquanto
na síndrome de Down o achado mais proeminente é
o atraso no desenvolvimento psicomotor associado a dismorfias,
na síndrome de Turner a baixa estatura pode ser o aspecto
mais importante. As indicações para estudo citogenético
(suspeita de anomalia em autossomos) são: a) retardo
do desenvolvimento intra-uterino e pós-natal, b) padrão
complexo de dismorfias, c) padrão complexo de malformações,
d) deficiência mental e e) insuficiência placentária,
sangramento durante o primeiro/segundo trimestre gestacional
e polidrâmnio. Vale observar que nenhuma das indicações
acima é de presença obrigatória. De todas
as indicações, a deficiência mental é
o achado mais freqüente e, usualmente, pelo menos dois
dos critérios acima estão presentes. Nas anomalias
dos cromossomos sexuais, há geralmente alteração
de estatura, a deficiência mental sendo infreqüente,
exceto nos casos de múltiplos cromossomos X. As anomalias
cromossômicas são responsáveis por, pelo
menos, metade dos casos de abortos espontâneos e natimortos
e são causa importante de malformações
congênitas. Mais de 0,6 por cento dos neonatos apresentam
anomalias significativas dos autossomos ou dos cromossomos sexuais.
As alterações cromossômicas
podem ser numéricas ou estruturais. As numéricas
referem-se à variação do número
diplóide (2n=46). A ausência de um cromossomo ou
a presença de um extra é denominada aneuploidia.
Os exemplos mais conhecidos de aneuploidias são as síndromes
de Turner (45, X) e de Down (47, XX ou XY, +21). As alterações
estruturais resultam de quebras seguidas de rearranjos anormais
e compreendem deleções, duplicações,
cromossomos em anel, isocromossomos, inversões e translocações.
Podem ser divididas em equilibradas, se não há
alteração do material genético, ou não
equilibradas, caso haja perda ou ganho de informações.
Indivíduos com anomalias equilibradas não apresentam
alterações fenotípicas, mas podem produzir
gametas não equilibrados e, portanto, têm risco
aumentado de progênie com cromossomopatias.
A maioria das alterações
numéricas (trissomias livres, por exemplo) não
são herdadas (denominadas de novo), tendo por
isso baixo risco de recorrência. Já as alterações
estruturais podem ser herdadas ou serem de novo e, assim,
demandam a realização do cariótipo dos
pais. Caso a anomalia seja encontrada em algum dos genitores,
o risco de recorrência na prole futura é considerado
alto. Nessas situações, há indicação
para diagnóstico pré-natal em futuras gestações
do casal, bem como nas gestações dos irmãos
fenotípicamente normais, mas cromossômicamente
anormais. A indicação mais frequente de diagnóstico
pré-natal é para gestantes com idade avançada,
pelo fato de estarem sob maior risco de produzir gametas aneuplóides.
A análise dos cromossomos é realizada
nas células em mitose (na fase de metáfase ou
prometáfase), sendo a coloração mais utilizada
a do bandamento G. Quando se faz necessário, são
também adotadas outras técnicas como bandamentos
C, R ou NOR. Deve-se ter em mente que anomalias mínimas
podem não ser visualizadas à microscopia ótica,
sendo necessárias técnicas de alta resolução
e/ou moleculares para sua identificação.
A hibridação
in situ por fluorescência (FISH) é uma técnica
recente que associa a citogenética a técnicas
moleculares e é utilizada para o esclarecimento de algumas
anomalias cromossômicas, principalmente aquelas que envolvem
menos que algumas megabases de DNA. Esta técnica baseia-se
no fato de que sequências de fita simples de DNA ou RNA
marcadas, chamadas “sondas”, ligam-se ao DNA ou
RNA celular sob condições propícias, formando
híbridos estáveis. Esta técnica não
substitui as de banda, mas é complementar no esclarecimento
de determinadas cromossomopatias. Vários tipos de sondas
estão disponíveis no mercado e a escolha de qual
será utilizada varia de acordo com as necessidades de
cada caso.
Quanto às síndromes gênicas,
a sua identificação é feita através
de consultas à literatura especializada e às bases
de dados informatizados. Programas como “Possum”,
“Ossum”, “London Dysmorphology Database”
e outros, auxiliam o trabalho do geneticista clínico.
A análise da genealogia, através
do heredograma, pode fornecer dados para a determinação
do padrão de herança envolvido, o que permitirá
reconhecer a etiologia como gênica ou cromossômica,
possibilitando também o cálculo do risco de recorrência
no processo do aconselhamento genético. Nem todas as
síndromes dismórficas são de origem gênica
ou cromossômica. Fatores ambientais teratogênicos,
tais como infecções transplacentárias,
diabetes mellitus, alcoolismo, fenilcetonúria
materna, deficiência de ácido fólico na
gestante ou o uso materno de medicamentos ou drogas ilícitas
durante a gestação, devem ser investigados através
de anamnese cuidadosa.
Quadros Clínicos de Apresentação
Pós-Natal (Erros inatos do metabolismo)
Diversas doenças
genéticas, incluindo as distrofias musculares (com exceção
da forma congênita), os raquitismos hereditários
e doenças heredo-degenerativas, têm apresentação
pós-natal. Estas patologias são apresentadas em
outras seções. Abordaremos aqui somente os erros
inatos do metabolismo (EIM). Estes são definidos como
doenças causadas por bloqueio em uma ou mais vias metabólicas,
afetando seu funcionamento normal. As alterações
ocorrem ao nível molecular, causando a ausência
da síntese de uma enzima, síntese de enzima funcionalmente
deficiente, ou ainda a destruição exagerada de
uma enzima normalmente sintetizada. Os EIM, freqüentemente,
apresentam variabilidade clínica (formas leves,
moderadas ou graves em uma mesma doença) e, ocasionalmente,
heterogeneidade genética (deficiência de
diferentes enzimas determinando mesmo quadro clínico).
Dividimos, artificialmente, e somente para
atender a finalidades didáticas, os quadros clínicos
dos EIM em três categorias: os que cursam com deformidades
esqueléticas e/ou quadro neurológico, ambos progressivos;
os que cursam com alterações funcionais (neurológicas
e/ou metabólicas); e os que cursam com aumento do ácido
lático plasmático (hiperlacticacidemia). Essa
classificação refere-se apenas aos aspectos mais
evidentes no quadro clínico do paciente.
Um número significativo
de pacientes atendidos em um hospital especializado em doenças
do aparelho locomotor apresentam quadros compatíveis
com os encontrados nos diversos erros inatos do metabolismo.
Estas doenças, geralmente, têm apresentação
pós-natal, são de etiologia gênica e, na
grande maioria das vezes, herdadas de forma autossômica
recessiva. Conseqüentemente, a consangüinidade entre
os pais e a existência de irmãos com quadro semelhante
ao do paciente deve ser sempre pesquisada. A correlação
entre o início da sintomatologia e a introdução
de um alimento novo na dieta também são importantes.
Outra informação a ser obtida é o modo
como a criança reage às infecções.
Erros de metabolismo de ácidos orgânicos costumam
causar respostas orgânicas desproporcionalmente graves
a infecções banais, determinando internação
hospitalar, não raramente em UTI.
Como diferentes erros
metabólicos podem ter manifestações clínicas
inespecíficas (acidose metabólica, hipoglicemia,
convulsões, retardo mental), deve-se, nessas situações,
solicitar uma série de exames laboratoriais denominada
‘testes de triagem para erros inatos do metabolismo’
(Tabela 1). A realização dos testes de triagem
para EIM deve ser considerada tão somente como uma primeira
abordagem, ampla e superficial. Se os resultados forem normais,
não está excluída a existência de
doença metabólica, já que diversos EIM
não são passíveis de serem detectados por
esta rotina de exames. Caso persista a hipótese diagnóstica,
complementa-se a investigação com testes laboratoriais
mais específicos. Ao se detectar alguma alteração
(metabólitos anormais eventualmente presentes), estudos
mais aprofundados da via metabólica em questão
deverão ser realizados. No SARAH, complementamos essa
rotina básica com gasometria e determinação
da concentração plasmática de glicose e
amônia, pelas razões expostas acima, mesmo na ausência
de sintomatologia específica. A complementação
propedêutica com as dosagens plasmáticas de lactato
e piruvato são importantes na investigação
de diversas patologias que cursam com aumento do ácido
lático plasmático.
| Tabela
1. Testes de Triagem para EIM* |
| Teste |
Metabólito
identificado |
Exemplos de
doenças |
| Benedict |
Substâncias
redutoras |
Galactosemia,
intolerância à frutose, síndrome de
Lowe |
| Cloreto férrico |
Derivados
da fenilalanina |
Fenilcetonúria,
MSUD,tirosinemia, hiperglicinemias |
| Dinitrofenilhidrazina |
Cetoácidos |
Acidoses láticas
e pirúvicas, glicogenoses I, III, V e VI |
| Nitrosonaftol |
Metabólitos
da tirosina |
Tirosinemia |
| Cianeto-nitroprussiato |
Cistina e
homocistina |
Cistinúria
e homocistinúria |
| Para-nitroanilina |
Ácido
metilmalônico |
Acidúria
metilmalônica |
| Brometo de
CTMA |
Mucopolissacarídios |
Mucopolissacaridoses |
| Azul de Toluidina |
Mucopolissacarídios |
Mucopolissacaridoses |
| Cromatografia
de aminoácidos |
Aminoácidos |
EIM de aminoácidos |
| *
Estes testes são considerados testes de triagem,
tendo portanto determinada porcentagem de resultados falso-positivos
ou falso-negativos. Caso persista a suspeita clínica,
testes mais específicos, conforme o quadro apresentado
pela criança, deverão ser solicitados. |
a) EIM que Cursam com Deformidades Esqueléticas
e/ou Quadro Neurológico, ambos Progressivos (Doenças
lisossômicas de depósito)
A maioria das doenças
metabólicas que cursam com deformidades esqueléticas
pertence ao grupo das doenças lisossômicas de depósito
(DLD). Estas são doenças causadas pelo funcionamento
deficiente de uma enzima lisossômica, com conseqüente
acúmulo intra-lisossômico de macromoléculas
não digeridas. Este acúmulo causa enorme distensão
dessas organelas e perturba o funcionamento celular. As crianças
com DLD nascem aparentemente normais e, após um período
de tempo variável, geralmente alguns meses, começam
a apresentar a sintomatologia característica. No SARAH,
vemos mais freqüentemente crianças com DLD que se
expressam clínicamente com quadros de desaceleração
da velocidade de crescimento com conseqüente déficit
pôndero-estatural, associada a deformidades esqueléticas
(cifose, deformidades torácicas, alargamento de punhos,
joelho valgo ou varo, contraturas articulares, fácies
grosseiro, entre outras) e visceromegalias acompanhadas ou não
de comprometimento do SNC (regressão neurológica,
convulsões). Estas doenças podem ainda cursar
como uma doença neurológica ‘pura’
(espasticidade, convulsão e ataxia, por exemplo).
A Tabela 2 apresenta
uma classificação das principais DLD. Os achados
clínicos listados referem-se somente aos aspectos clínicos
mais freqüentemente encontrados em cada grupo. As esfingolipidoses,
embora não cursem com anormalidades esqueléticas,
foram incluídas pela similaridade com relação
às outras características clínicas e pelo
fato de pertencerem ao grupo das DLD. No caso específico
da doença de Gaucher, estão presentes deformidades
ósseas, geralmente tardias, e que usualmente não
são evidenciadas à ectoscopia.
| Tabela 2.
Classificação das Doenças Lisossômicas
de Depósito |
Grupo |
Exemplos |
Aspectos Clínicos |
| Mucopolissacaridoses |
Mucopolissacaridoses
I-IV, VI -VII |
Deformidades
esqueléticas, facies grosseiro, regressão
neurológica, convulsões, hepatoesplenomegalia |
| Mucolipidoses |
Mucolipidose
II (I-cell disease) e mucolipidose III |
Idem
|
| Oligossacaridoses |
Manosidoses,
fucosidose e sialidoses |
Idem
|
| Esfingolipidoses |
Gangliosidoses
GM1 e GM2, Niemann-Pick, Gaucher e leucodistrofia metacromática |
Regressão
neurológica, lesão de substância branca,
adenomegalias, hepatoesplenomegalia |
Se a suspeita clínica recair sobre as
DLD, deve-se solicitar uma rotina de exames laboratoriais denominada
‘testes de triagem para doenças lisossômicas
de depósito’, apresentada na Tabela 3. Algumas
DLD não são detectáveis por essa rotina
laboratorial e, assim, dosagens das atividades de outras enzimas
lisossômicas deverão ser solicitadas, conforme
a hipótese diagnóstica.
| Tabela
3. Testes de Triagem para as Doenças de Depósito* |
| Teste |
Exemplos
de doenças |
| Teste do Brometo de CTMA |
Mucopolissacaridoses |
| Teste do Azul de toluidina |
Mucopolissacaridoses |
| Cromatografia de mucopolissacarídios |
Mucopolissacaridoses |
| Cromatografia de oligossacarídios |
Gangliosidose GM1, manosidose |
| Cromatografia de sialidoligossacarídios |
Sialidoses |
| Dosagem de arilsulfatase A |
Leucodistrofia metacromática |
| Dosagem de hexosaminidases |
Gangliosidoses GM2 |
| * Estes testes
são considerados testes de triagem, tendo portanto
determinada porcentagem de resultados falso-positivos
ou falso-negativos. Caso persista a suspeita clínica,
testes mais específicos, conforme o quadro apresentado
pelo paciente, deverão ser solicitados. |
b) EIM que Cursam apenas com Alterações
Funcionais (neurológicas e/ou metabólicas)
(Distúrbios
do metabolismo de ácidos orgânicos, aminoácidos
e ciclo da uréia)
A sintomatologia costuma
aparecer em crianças após o início da ingesta
protéica. A expressão dos quadros clínicos
é variável, podendo apresentar-se como atraso
no desenvolvimento psicomotor, retardo mental, irritabilidade,
tremores ou ataxia até apnéia e coma. Muitas dessas
patologias podem simular sépsis ou apresentar-se como
morte súbita ou ‘quase morte súbita’
de recém-nascidos. O fluxograma apresentado na Tabela
3 é útil para se diferenciar bioquímicamente
essas doenças, que podem cursar com ou sem acidose metabólica,
hipoglicemia ou hiperamoniemia. As alterações
bioquímicas podem ser constantes ou intermitentes. No
último caso, nos períodos entre as crises, a normalização
bioquímica é freqüente, o que dificulta,
senão impede, o diagnóstico. Essa normalização
bioquímica pode ocorrer já nos dias seguintes
à instituição de terapêutica parenteral,
visando a correção do equilíbrio ácido-básico,
hidro-eletrolítico e da glicemia. Assim, sugerimos que
as amostras biológicas (soro, plasma heparinizado e urina)
sejam coletadas e congeladas antes da instituição
de quaisquer medidas terapêuticas. Ao nosso ver, essa
medida deveria ser tomada rotineiramente nos serviços
de emergência pediátrica, à admissão
de um paciente que possa, mesmo remotamente, ter um EIM. Se,
mais tarde, esta hipótese diagnóstica for descartada,
simplesmente despreza-se os materiais coletados. Caso contrário,
não se perdeu o ‘momento diagnóstico’,
o que freqüentemente ocorre nos hospitais não habituados
com investigação e tratamento de crianças
com distúrbios metabólicos.
c) EIM que Cursam com
Hiperlacticacidemia
O ácido láctico é o produto
do metabolismo anaeróbico da glicose, obtido através
da redução do piruvato pelo complexo enzimático
da piruvato desidrogenase (PDH). Parte desse lactato é
oxidado no músculo esquelético, mas a maior parte
dele é transformada em glicose pelo fígado. O
metabolismo oxidativo do piruvato é realizado pelo PDH,
ciclo de Krebs e cadeia respiratória. Já o seu
metabolismo anaeróbico ocorre pela ação
da enzima piruvato carboxilase (PC). Defeitos em quaisquer dessas
vias levam à hiperlacticacidemia e, em determinadas ocasiões,
acúmulo concomitante de piruvato.
A causa mais comum de aumento plasmático
do lactato é a deficiência de um dos componentes
do complexo PDH. Os níveis de lactato plasmático
sofrem aumento de moderado a intenso, determinando quadros variados
desde ataxia periódica induzida por carbohidratos até
morte neonatal precoce. A deficiência de PDH pode ter
herança autossômica recessiva ou dominante ligada
ao cromossomo X.
A deficiência de PC pode levar à
hiperlacticacidemia de graus variáveis e a clínica
igualmente variável, apresentando-se como desenvolvimento
psicomotor lento podendo levar à morte antes dos 3 meses
de vida.
Outras causas de aumento plasmático
do ácido lático incluem algumas acidemias orgânicas,
distúrbios de oxidação dos ácidos
graxos, mitocondriopatias e glicogenoses, e para seu diagnóstico
são necessários testes específicos, cujas
coletas de material biológico exigem procedimentos especiais.
d) Distúrbios Congênitos
da Glicosilação
Um novo grupo de doenças
tem sido recentemente descrito, em especial nos últimos
dois anos: os distúrbios congênitos da glicosilação.
São causados por deficiências enzimáticas
específicas, que levam à deficiência de
incorporação de resíduos de ácido
siálico em diversas glicoproteínas. Essas moléculas,
estruturalmente anormais, perdem sua função biológica
normal e produzem quadros clínicos variados. Em comum,
apresentam atraso no desenvolvimento psicomotor, distúrbios
da coagulação (hiper- ou hipocoagulação),
estrabismo, hipotonia, distúbios cerebelares e, não
raramente, retardo mental. Até hoje, já foram
descritos 12 diferentes doenças que compõem esse
grupo. O diagnóstico é realizado pela demonstração
da hipoglicosilação de glicoproteínas,
através da focalização isoelétrica
da transferrina. A classificação é realizada
em bases clínicas. Existe tratamento disponível
para somente uma dessas doenças (CDC Ib).
