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Doenças
Metabólicas que afetam o Cérebro
Introdução
As doenças metabólicas são
conseqüentes a erros inatos do metabolismo e são
estudadas por uma área específica da genética,
a bioquímica genética. Para algumas já
há tratamento e a resposta varia de acordo com a doença
e a habilidade do clínico e da família para
cuidar da criança. Para a maioria, ainda não
se dispõe de terapêutica eficaz. Neste caso,
o tratamento restringe-se em oferecer à criança
suporte clínico e medidas que visam melhor qualidade
de vida.
Essas doenças podem ter repercussão
direta sobre o sistema locomotor, como as doenças lisossômicas
de depósito, que causam, por exemplo, restrições
articulares e deformidades esqueléticas, ou indireta,
lesando o cérebro e provocando disfunções
motoras. Os erros metabólicos que afetam o sistema
nervoso central (cérebro e medula) são classificados
por grupos e sub-grupos (Tabela 1). A classificação
torna mais clara a compreensão dos diversos sub-grupos
de doenças, que constituem cada um uma ‘unidade
nosológica’, em termos de raciocínio
clínico. A identificação de cada doença
que compõe estas ‘unidades nosológicas’
é realizada não por suas características
clínicas, geralmente inespecíficas, mas pela
investigação laboratorial, que permite o diagnóstico
através da identificação das alterações
bioquímicas presentes. Os subgrupos são vários
e o número de desordens conhecidas é muito grande.
A clínica é bastante variável e a maioria
dessas doenças é de incidência rara, o
que traz dificuldades para o diagnóstico.
| Tabela 1
- Classificação e Exemplos de Doenças
Metabólicas que Afetam o Cérebro |
| Grupo |
Sub-Grupos/Exemplos
de Doenças |
Desordens
do Metabolismo Intermediário
Deficiência de diferentes tipos de enzimas
causa bloqueio de vias metabólicas, interferindo
com a produção de energia e os produtos
formados (de baixo peso molecular) acarretam intoxicação
endógena. |
Metabolismo
de aminoácidos
Fenilcetonúria
Homocistinúria Hiperglicinemia
não cetótica Doença
do xarope de bordo Metabolismo de ácidos
orgânicos
Acidúria metilmalônica
Acidúria isovalérica
Acidemia propiônica Ciclo
da uréia
Citrulinemia Acidúria
arginosuccínica |
Doenças
Lisossômicas de Depósito
Deficiência de diferentes tipos de enzimas
fazendo com que substratos (de alto peso molecular) não
sejam degradados.
Acúmulo anormal destes no interior da célula
|
Mucopolissacaridoses
Mucopolissacaridoses I-IV,
VI e VII Esfingolipidoses
Doença de Niemann-Pick
Doença de Gaucher Doença
de Fabry Doença de Krabbe
Leucodistrofia metacromática
Gangliosidoses Pseudo-Hurler
(GM1) Doença de Tay-Sachs
(GM2, variante B) Doença
de Sandhoff (GM2, variante 0) Deficiência
de ativador do gangliosídio GM2 (GM2, variante
AB) Mucolipidoses
Mucolipidose II (I-cell disease)
Mucolipidose III Glicoproteinoses
Manosidose Fucosidose
Sialidose (mucolipidose I) Glicogenoses
Glicogenose II (Doença de Pompe)
|
Desordens
do
Metabolismo do Cobre |
Doença
de Wilson
Doença de Menkes
|
Desordens
do
Metabolismo das Purinas
|
Síndrome
de Lesch-Nyhan |
Desordens
do metabolismo intermediário
Aminoacidopatias
As aminoacidopatias são distúrbios
do metabolismo dos aminoácidos causados pelo funcionamento
deficiente de uma enzima envolvida na conversão de
um aminoácido em outro ou na via catabólica
deste aminoácido. Como conseqüência, há
aumento da concentração do precursor situado
antes do bloqueio da via metabólica e diminuição
da concentração do produto após o bloqueio.
Os mecanismos de produção das doenças
podem ser devidos ao acúmulo de substrato ou à
falta do produto. Na Figura1 temos as vias metabólicas
da fenilalanina e tirosina, que ilustram estes mecanismos.
Na fenilcetonúria, a patogenia se dá tanto
pelo excesso de substrato (fenilalanina) como pela falta
de melanina (falta de produto).
|
Figura 1. Vias
metabólicas da fenilalanina e tirosina e exemplo
de três erros metabólicos. As substâncias
cujas concentrações estão aumentadas
na fenilcetonúria estão demonstradas
em vermelho. As em verde representam os bloqueios
metabólicos. |
Fenilcetonúria
(PKU)
Existem duas formas patogênicas de
hiperfenilalaninemia, denominadas coletivamente fenilcetonúria.
A forma clássica é determinada pela deficiência
da enzima fenilalanina hidroxilase (PAH) e a forma ‘maligna’
por um defeito no ciclo do BH4 (tetrahidrobiopterina), cofator
para PAH (1 a 3% de todos os casos de PKU).
Na hiperfenilalaninemia
benigna persistente, os níveis plasmáticos
de fenilalanina não causam o aparecimento de sintomatologia
clínica e quem tem esse tipo de fenilcetonúria
geralmente não necessita tratamento. Entretanto,
a gravidez de uma gestante com hiperfenilalaninemia constitui
risco para o concepto saudável, pois os níveis
de fenilalanina atingidos nos tecidos fetais podem causar
lesões cerebrais (embriopatia tóxica). Assim,
mães com hiperfenilalaninemia, algumas das quais
com inteligência normal, ou com hiperfenilalaninemia
benigna persistente, têm crianças sem o erro
metabólico, mas com cardiopatia, microcefalia e retardo
mental. A prevenção da embriopatia tóxica
é feita com dieta pobre em fenilalanina, de modo
a manter-se os níveis plasmáticos do aminoácido
entre 4 e 6 mg/dl (alguns autores preconizam níveis
ainda menores), três meses antes da concepção,
devendo persistir nesses níveis por toda a gestação.
O descontrole metabólico durante o período
gestacional, mesmo por curtos períodos, coloca o
feto em risco para malformações.
Nas formas patogênicas,
ao nascimento as crianças são clinicamente
normais, mas já nos primeiros meses pode haver atraso
do desenvolvimento psicomotor e distúrbio da pigmentação,
traduzido clinicamente por uma tendência das crianças
a terem a pele, os cabelos e os olhos mais claros do que
o restante dos familiares. Irritabilidade e vômitos
podem ser proeminentes. Crises convulsivas são observadas
em 25 por cento dos casos, podendo, nas crianças
menores, assumir as características de espasmos em
flexão. Microcefalia, retardo mental e hiperatividade
são achados comuns nas crianças maiores. Aumento
do tônus muscular e outras alterações
observadas quando há lesão das vias nervosas
responsáveis pelo início dos movimentos voluntários
podem, também, estar presentes. Na forma ‘maligna’,
as alterações neurológicas são
mais graves do que na clássica e representadas, principalmente,
por distúrbio do tônus muscular.
Típicamente,
a urina de crianças com fenilcetonúria não
tratada tem odor peculiar (descrito como semelhante ao encontrado
em ninhos de rato), embora isto seja observado somente em
uma porcentagem de pacientes.
Exames Complementares
-
O diagnóstico é confirmado
pelo nível de fenilalanina no sangue.
-
Dosagens das pterinas na urina e de neurotransmissores
são realizadas nos casos em que há suspeita
de hiperfenilalaninemia ‘maligna’. O teste
de sobrecarga de BH4 é realizado através
da administração de BH4, sendo realizadas
dosagens de fenilalanina basal, quatro e oito horas após
a ingestão da droga. Nos casos em que há
deficiência do cofator, os níveis plasmáticos
de fenilalanina se normalizam rapidamente.
-
Grande porcentagem das crianças
apresenta eletroencefalograma alterado.
-
Dietas com concentrações
baixas em fenilalanina, orientadas por equipes de nutricionistas
especializadas, objetivando prevenir ou minimizar as seqüelas
neurológicas. Para os lactentes existem preparações
comerciais de leite em pó pobre em fenilalanina.
O tratamento deve ser mantido preferencialmente por toda
a vida.
-
Administração de BH4, DOPA
e triptofano nos casos de fenilcetonúria por deficiência
de BH4.
-
Anticonvulsivantes, se indicados.
Prognóstico
As crianças
diagnosticadas e tratadas precocemente apresentam desenvolvimento
cognitivo normal, mas algumas persistem com hiperatividade
ou outros distúrbios de comportamento.
Homocistinúria
Causada, pelo menos,
por duas deficiências enzimáticas. A clínica
é semelhante, mas ocorrem variações
em cada tipo. As manifestações mais constantes
são o retardo mental e o biotipo marfanóide
(estatura elevada com membros longos e delgados). Aumento
do tônus muscular, convulsões e distúrbios
psicóticos podem estar presentes.
Na deficiência da cistationina beta-sintase,
tipo mais freqüente, trombos tanto venosos quanto arteriais
são freqüentes e acidentes vasculares cerebrais
múltiplos podem resultar em hemiplegia ou outras
síndromes neurológicas.
A segunda forma mais freqüente resulta
da deficiência da metilenotetrahidrofolato redutase
e pode cursar com anemia megaloblástica (células
vermelhas grandes).
Exames Complementares
-
O diagnóstico pode ser suspeitado
pela prova do cianeto-nitroprussiato positiva na urina,
mas pode haver negatividade. Caso positiva, está
indicado realizar o teste do nitroprussiato de prata,
o qual é mais específico.
-
Se possível, quantificar por cromatografia
de camada fina ou, preferencialmente, por cromatografia
líquida de alta performance (HPLC) a homocistina
e a metionina plasmáticas, possibilitando assim
diferenciar as duas formas citadas. A quantificação
de aminoácidos é imprescindível para
firmar-se o diagnóstico com segurança.
-
Crianças com deficiência
de cistationina beta-sintase podem se beneficiar com altas
doses de vitamina C. Outras respondem à administração
de piridoxina.
-
As dietas com baixo teor de metionina,
se iniciadas precocemente podem, também, prevenir
ou retardar um número variável de complicações
na deficiência de cistationina beta-sintase.
DOENÇAS
LISOSSÔMICAS DE DEPÓSITO
As doenças lisossômicas são
causadas por deficiências enzimáticas específicas
resultando em depósito anormal de substratos normais
ou de seus produtos catabólicos dentro dos lisossomos
(organelas citoplasmáticas que compoem o aparelho
digestivo das células).
Mucopolissacaridoses
(MPS)
As principais alterações
são opacificação de córnea,
cifose tóraco-lombar, alargamento de punhos, aumento
de baço e fígado, retardo mental, regressão
neurológica, baixa estatura, megaencefalia, traços
faciais grosseiros, abdome protuberante e disostose múltipla
(defeito de ossificação).
Dependendo do tipo de MPS, pode ou não
haver retardo mental e regressão neurológica,
ou opacificação de córnea. Os tipos
de mucopolissacarídios (glicosaminoglicanos) excretados
são evidenciados pela cromatografia de mucopolissacarídios
urinários e variam conforme o tipo de MPS (Tabela2).
|
Tab. 2. Classificação das Mucopolissacaridoses |
| Classificação
Numérica |
Nome |
Manifestações
Clínicas |
MPS
I H |
Hurler |
Opacificação
de córnea, disostose múltipla, órgãos
grandes, doença cardíaca, retardo mental,
sobrevida diminuída |
MPS
I H/S |
Hurler/Scheie |
Fenótipo
intemediário entre Hurler e Scheie |
MPS
I S |
Scheie |
Opacificação
de córnea, limitações articulares,
inteligência normal |
MPS
II (grave) |
Hunter |
Disostose
múltipla, órgãos grandes, sem
opacificação de córnea, retardo
mental, sobrevida diminuída |
MPS
II (leve) |
Hunter |
Inteligência
normal, baixa estatura |
MPS
III A |
Sanfilippo
A |
Retardo
mental, hiperatividade, relativamente poucas manifestações
somáticas |
MPS
III B |
Sanfilippo
B |
Fenótipo
similar a MPS III A |
MPS
III C |
Sanfilippo
C |
Fenótipo
similar a MPS III A |
MPS
III D |
Sanfilippo
D |
Fenótipo
similar a MPS III A |
MPS
IV A |
Morquio
A |
Anormalidades
esqueléticas típicas, opacificação
de córnea, hipoplasia de odontóide (estrutura
da primeira vértebra que se articula com a
segunda)
Existem formas mais leves |
MPS
IV B |
Morquio
B |
Espectro
de gravidade como na MPS IV A |
MPS
VI |
Maroteaux-Lamy |
Disostose
múltipla, opacificação corneana,
inteligência normal, sobrevida diminuída
nas formas graves |
MPS
VII |
Sly |
Disostose
múltipla, aumento de fígado, amplo espectro
de gravidade |
As crianças nascem sem as alterações
clínicas descritas, mas apresentam envolvimento progressivo
variável, após os primeiros meses de vida,
desenvolvendo-se o quadro clínico específico,
conforme a deficiência enzimática presente
e a forma da doença.
O retardo mental é principalmente
encontrado nas síndromes de Hurler, Hunter (herança
ligada ao cromossomo X), Sanfilippo, e também na
MPS VII. Na síndrome de Scheie a criança geralmente
tem desenvolvimento cognitivo normal. Na Maroteaux-Lamy,
as alterações clínicas podem variar
e perdas cognitivas não tem sido observadas.
Dentre as doenças metabólicas
que afetam o sistema nervoso central, as MPS são
as mais freqüentemente atendidas no SARAH.
Exames Complementares
-
O grau de envolvimento esquelético
varia conforme o tipo e a forma de MPS. O estudo radiográfico
mais importante para a complementação diagnóstica
é o raio X simples com as seguintes incidências:
perfil da coluna (transição tóraco-lombar),
perfil de crânio (sela turca), mãos e pés
(ântero-posterior), que embora não sejam
específicas, em nossa prática têm
se mostrado bastante sensíveis.
-
O screening com os testes do azul de toluidina
(Berry spot test) e do brometo de CTMA (teste de Dorfmann)
pode orientar o diagnóstico e a confirmação
é feita através da dosagem enzimática
em fibroblastos e leucócitos, orientada pela cromatografia
de mucopolissacarídios (glicosaminoglicanos).
Tratamento
O transplante de medula óssea, embora
ainda considerado experimental nas mucopolissacaridoses,
tem sido realizado com bons resultados na MPS VI (Maroteaux-Lamy).
A indicação desta modalidade terapêutica
nos outros tipos de MPS é controversa.
Esfingolipidoses
Desordens do Metabolismo dos Esfingolipídios
Doença
de Niemann-Pick
Classificada em três tipos: A, B
e C. Nos dois primeiros tipos, a esfingomielinase encontra-se
deficiente, com conseqüente acúmulo de esfingomielina
e outros lipídios no sistema monócito-fagocitário,
presente em vários tecidos, incluindo o cérebro.
O tipo C representa um erro no trânsito do colesterol
exógeno, que é associado ao acúmulo
intra-celular de colesterol não-esterificado. Neste
tipo, a atividade da esfingomielinase é normal.
Na doença de Niemann-Pick tipo A,
os primeiros sintomas aparecem entre três e nove meses
de idade e caracterizam-se por aumento importante de baço
e fígado e atraso do desenvolvimento psicomotor.
Com a progressão da doença, aparecem convulsões,
regressão psicomotora e aumento do tônus muscular.
O tipo B é caracterizado por ser
fenotipicamente variável. O diagnóstico, geralmente,
é suspeitado durante a infância, por causa
do aumento do baço e do fígado. A maioria
dos indivíduos com este tipo de patologia tem pouco
ou nenhum envolvimento neurológico.
O tipo C tem apresentação
clínica variada. O quadro clássico compõe-se
de paralisia dos nervos motores oculares, deficiência
de equilíbrio e incoordenação progressivas,
movimentos involuntários e envolvimento cognitivo.
Manifesta-se no final da infância. Pode apresentar-se,
também, com tônus diminuído, atraso
do desenvolvimento psicomotor, doença hepática
neonatal ou perdas cognitivas no adulto.
Exames Complementares
-
A presença de células esponjosas
na medula óssea sugere o diagnóstico (células
de Niemann-Pick).
-
A confirmação dos Tipos
A ou B é obtida através da análise
da esfingomielinase em leucócitos ou fibroblastos.
A classificação em tipo A ou B é
feita pelo quadro clínico.
-
Para estabelecer-se o diagnóstico
do Tipo C são necessários exames mais complexos
(dosagem de colesterol celular esterificado e colorações
especiais de células de fibroblastos cultivados,
disponíveis em poucos centros diagnósticos).
Doença
de Gaucher
Há depósito de cerebrosídios
nos tecidos envolvidos, devido a deficiência da glicocerebrosidase.
Apresenta-se sob três formas clínicas: crônica
não neuronopática (Tipo 1), aguda neuronopática
(Tipo 2) e sub-aguda neuronopática (Tipo 3), todas
cursando com aumento de baço e fígado, lesões
ósseas, e ocasionalmente acometendo outros órgãos.
O envolvimento do sistema nervoso central
(cérebro e medula) só não ocorre no
Tipo 1. Alterações hematológicas (trombocitopenia,
anemia, mais freqüentemente) estão geralmente
presentes em todos os tipos e podem ser as primeiras manifestações
da doença de Gaucher.
O Tipo 1 cursa com
idade de iníco da doença e gravidade variáveis,
desde assintomática até quadros de citopenia
periférica (anemia e diminuição das
plaquetas e dos glóbulos brancos de ocorrência
não freqüente), aumento de baço e fígado
com provas de função hepática anormais
e lesões ósseas que podem levar a fraturas
patológicas.
No Tipo 2 a idade
de início e o curso são heterogêneos.
Há duas formas: a de início precoce e a de
início tardio. Geralmente, o aumento do fígado
é gigante. A doença cursa com distúrbio
dos movimentos do globo ocular, aumento do tônus muscular,
convulsões e movimentos involuntários ocasionalmente.
O Tipo 3 é de gravidade intermediária
entre os dois tipos acima. O acometimento neurológico
é mais tardio e menos grave do que o observado no
Tipo 2. Pode iniciar-se desde o primeiro mês de vida
até a adolescência, geralmente com aumento
de baço e fígado. Em cerca de metade das crianças,
o quadro neurológico aparece na primeira década
de vida, geralmente com distúrbio dos movimentos
do globo ocular, podendo deficência de equilíbrio
e incoordenação iniciar-se posteriormente.
Exames Complementares
-
A presença de células de
Gaucher em aspirados de medula óssea sugere fortemente
o diagnóstico.
-
As lesões ósseas são
observadas, no Raio X de ossos longos, como lesões
líticas e deformidades ósseas, levando a
imagens típicas, como o ´fêmur em frasco
de Erlenmeyer’.
-
A confirmação diagnóstica
é obtida através da análise da b-glicosidase
em leucócitos ou culturas de fibroblastos.
Tratamento
Recentemente,
foi introduzido um preparado sintético da b-glicosidase
para uso endovenoso. Os resultados são aparentemente
bons no Tipo 1. O preço do preparado é bastante
elevado.
Leucodistrofia
Metacromática
Doença autossômica recessiva
causada pela deficiência de arilsulfatase A (cerebrosídeo
sulfatase). O termo ‘metacromática’
é usado porque o material lipídico intracelular
acumulado é corado de marrom ou dourado pelo azul
de toluidina (corante utilizado para exames histológicos).
As alterações
na forma infantil manifestam-se geralmente entre um ano
e meio e dois anos de idade e caracterizam-se, inicialmente,
por distúrbio da marcha, reflexos profundos diminuídos
e tônus muscular diminuído. Perda cognitiva
e aumento do tônus muscular ocorrem à medida
que a doença progride. Existem também as formas
juvenis e adulta, que apresentam curso mais protraído
e manifestações variáveis conforme
o tipo. As formas juvenis apresentam heterogeneidade clínica,
iniciando-se entre quatro e 12 anos de idade, evoluindo
com dificuldades cognitivas, déficit de equilíbrio
e incoordenação, movimentos involuntários,
atrofia do nervo óptico e aumento do tônus
muscular nos quatro membros. A forma adulta inicia-se na
puberdade e evolui com perdas cognitivas, psicose, déficit
de equilíbrio e incoordenação e distúrbio
dos movimentos nos quatro membros com aumento do tônus
muscular. Há, ainda, uma forma rara de leucodistrofia
metacromática causada, não pela deficiência
da arilsulfatase A, mas da proteína ativadora do
cerebrosídeo (SAP-1). O quadro clínico é
indistinguível da forma juvenil.
É possível haver deficiência
de arilsulfatase A sem o desenvolvimento de leucodistrofia
metacromática, devido à presença de
alelos mutantes que determinam baixa atividade da enzima
(alelos da pseudo-deficiência de arilsulfatase A).
A atividade enzimática pode superpor-se à
de indivíduos com leucodistrofia metacromática,
quando em homozigose. Estima-se que este alelo tenha frequência
relativamente alta na população em geral.
Exames Complementares
-
Demonstração da presença
de processo de perda de mielina no encéfalo, preferencialmente
por meio da ressonância magnética.
-
Demonstração, por meio de
exames neurofisiológicos, da presença de
processo de perda de mielina (potencial evocado visual,
potencial evocado sômato-sensitivo de membros superiores).
A velocidade de condução nervosa é
moderadamente reduzida, com exceção da forma
adulta, onde pode ser normal.
-
O diagnóstico é confirmado
pela ausência ou deficiência da atividade
da arilsulfatase A pesquisada nos glóbulos brancos
ou cultura de fibroblastos, juntamente com um dos métodos
acima.
Gangliosidoses
As gangliosidoses são esfingolipidoses
nas quais gangliosídios são depositados em
grandes quantidades, principalmente no sistema nervoso central.
Gangliosidose
GM1
Ocorre sob três formas, todas causadas
pela deficiência enzimática da beta-galactosidase
ácida (genes alélicos).
Tipo 1 (forma infantil)
O quadro clínico
lembra o da doença de Hurler e, por isso, foi por
muitos anos conhecida como pseudo-Hurler. Alterações
como infiltração de face e extremidades, bossa
frontal, hipertrofia de gengivas e da língua podem
ser evidentes ao nascimento. O aumento de fígado
está geralmente presente depois dos seis meses de
idade. Há atraso importante do desenvolvimento psicomotor
com posterior regressão neurológica e as deformidades
esqueléticas são semelhantes às encontradas
na síndrome de Hurler (entre outras, cifoescoliose
toracolombar, hipoplasia de vértebras e alargamento
dos ossos longos). O ‘startle reflex’ (reflexo
do susto) está habitualmente presente e um quadro
convulsivo tem início a partir do sexto mês.
Tipo 2 (forma juvenil)
Os sintomas têm
início mais tarde, em geral com déficit de
equilíbrio e incoordenação, em torno
dos 12 meses de idade. O curso da doença é
mais lento e as alterações esqueléticas
são mais discretas do que no Tipo 1.
Tipo 3 (forma adulta)
Início na adolescência ou
na idade adulta. Apresentação clínica
variável. A clínica pode caracterizar-se por
disartria (dificuldade para articular a palavra), movimentos
involuntários ou por um quadro de degeneração
espinocerebelar (tônus muscular aumentado e déficit
de equilíbrio e incoordenação), geralmente
descrita como atípica. A doença é lentamente
progressiva, podendo evoluir por vários anos.
Exames Complementares
-
O estudo radiográfico do esqueleto
mostra alterações características
nas formas 1, 2 e 3.
-
O diagnóstico pode ser confirmado
através da dosagem da beta-galactosidase nos glóbulos
brancos ou em cultura de fibroblastos.
Doença
de Tay-Sachs (Gangliosidose
GM2, variante B; forma infantil)
Deficiência da hexosaminidase A.
Herança autossômica recessiva. As alterações
clínicas manifestam-se já nos primeiros meses
de vida, sendo o ‘startle reflex’(reflexo
do susto) e a irritabilidade os sintomas mais precoces.
A criança apresenta diminuição do tônus
muscular e não faz as aquisições motoras
ou cognitivas. Os sintomas neurológicos progridem
rapidamente. A presença de mancha cor de cereja na
retina é achado característico, podendo estar
presente também em outras esfingolipidoses. No entanto,
a ausência da mancha não exclui o diagnóstico,
pois esta pode aparecer mais tardiamente no curso da doença.
Existe uma variante da doença de
Tay-Sachs, denominada variante B1. A atividade da hexosaminidase
A é normal quando se usa o substrato não-sulfatado
(o normalmente utilizado na rotina dos laboratórios
especializados), mas apresenta atividade apenas residual
(isto é, atividade zero ou quase zero) ao utilizar-se
o substrato sulfatado (MUGS). O fenótipo pode ser
do Tipo infantil tardio ou adulto.
Exames Complementares
O diagnóstico
é confirmado através da dosagem das hexosaminidases,
que mostra deficiência da hexosaminidase A.
Doença
de Sandhoff (Gangliosidose GM2, variante
0)
Deficiência
de hexosaminidases A e B. Herança autossômica
recessiva. Clinicamente, é indistinguível
da deficiência de hexosaminidase A.
Exames Complementares
O diagnóstico
é confirmado através da dosagem das hexosaminidases,
que mostra deficiência tanto da hexosaminidase A quanto
da B.
Deficiência
de Ativador do Gangliosídeo GM2
(variante AB)
Essa forma é causada não
por deficiência de hexosaminidases, mas por falta
do fator ativador GM2. Incidência muito rara. Somente
a forma infantil foi até agora descrita. Clinicamente
indistinguível das outras gangliosidoses GM2.
Exames Complementares
-
As atividades das hexosaminidases A e
B são normais ou aumentadas.
-
Solicitar ao laboratório dosagem
de hexosaminidases utilizando substrato natural.
Glicogenoses
Nas glicogenoses
há acúmulo de glicogênio em vários
tecidos, devido a deficiência ou ausência de
uma atividade enzimática específica. Mais
de dez formas são conhecidas, sendo que, na maioria
delas, a forma de herança é autossômica
recessiva.
A causa das alterações
clínicas durante o primeiro ano é, básicamente,
a hipoglicemia. Convulsões são freqüentes.
Pode haver atraso do desenvolvimento psicomotor, geralmente
quando há acidose metabólica associada. Retardo
do desenvolvimento somático, fraqueza muscular e
aumento do fígado são manifestações
quase sempre presentes. Freqüentemente, a história
sugere ainda acidose de grau variável, que pode ser
associada a acidemia lática.
O envolvimento do
cérebro é geralmente secundário à
hipoglicemia e ocasional, exceto na Doença de Pompe,
na qual o acúmulo de glicogênio ocorre também
no sistema nervoso central, principalmente na medula espinhal
e no tronco cerebral.
Exames Complementares
Os
exames citados abaixo não autorizam estabelecer-se
o diagnóstico de glicogenose, mas auxiliam a caracterizar
qual glicogenose deverá ser investigada. Geralmente,
faz-se primeiro a biópsia de fígado ou muscular,
dependendo da sintomatologia apresentada pela criança,
para demonstração de acúmulo de glicogênio.
Caso isto seja verificado, os exames abaixo devem ser realizados
para classificação da glicogenose:
-
Sangue: glicose, ácido lático,
ácido úrico, colesterol, triglicérides
e creatino-quinase.
-
Radiografia de tórax para avaliar
a área cardíaca (a Doença de Pompe
causa cardiomegalia).
-
Uma vez classificada clínico-laboratorialmente
a glicogenose, apesar das dificuldades em se conseguir um
laboratório que realize a análise, é
possível conseguir-se a dosagem da enzima específica.
DESORDENS
DO METABOLISMO DO COBRE E DAS PURINAS
Doença
de Wilson
Esta desordem não é causada,
ao contrário do que se acreditava anteriormente,
pela deficiência ou ausência de ceruloplasmina,
que é uma proteína transportadora do cobre.
A doença de Wilson é caracterizada por depósito
anormal deste metal nos tecidos, com degeneração
principalmente do fígado e dos gânglios da
base (núcleos localizados no centro do cérebro
relacionados com o controle dos movimentos). A herança
é autossômica recessiva.
A clínica é bastante variável.
As alterações hepáticas podem preceder
os sintomas neurológicos, principalmente em crianças
abaixo de cinco anos de idade. Quando o início é
mais tardio, acima de 10 anos de idade, a doença
manifesta-se com movimentos involuntários, disartria
(dificuldade para articular a palavra), rigidez dos membros
e incoordenação motora. O anel corneano de
Kayser-Fleischer (pigmentação em forma de
anel, em torno da iris), é sinal patognomônico.
Pode ser observado a olho nu ou através da lâmpada
de fenda e está presente em todos os pacientes com
manifestações neurológicas.
O curso pode ser agudo mas geralmente é
lentamente progessivo. Distúrbios de comportamento
podem ser observados por meses ou anos, mesmo na ausência
de alterações hepáticas ou neurológicas.
Outros sintomas de apresentação incluem crises
hemolíticas agudas, dores articulares, cálculo
renal, doença pancreática, cardiomiopatia
e hipoparatireoidismo. A doença de Wilson não
é causa de retardo mental, como descrito previamente.
Exames Complementares
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O diagnóstico é confirmado
através de níveis séricos bastante
diminuídos de ceruloplasmina e aumento da eliminação
de cobre urinário.
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A tomografia computadorizada de crânio
demonstra áreas de hipodensidade ao nível
dos gânglios da base (núcleos localizados
no centro do cérebro relacionados com controle
dos movimentos), mas somente em uma minoria de pacientes
com sintomatologia neurológica.
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A ressonância magnética de
encéfalo pode mostrar sinal de alta intensidade
ao nível dos gânglios da base nos estudos
em T2 e atrofia e lesões de substância branca
subcortical, também somente em uma minoria dos
indivíduos com doença neurológica.
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D-Penicilamina oral. O tratamento deve
ser acompanhado através da dosagem do cobre urinário.
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A associação de piridoxina
é necessária pois a penicilamina induz sua
deficiência.
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A associação de corticosteroides
pode aliviar os efeitos colaterais da penicilamina tais
como síndrome nefrótica, trombocitopenia
e sintomas miastênicos.
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O sulfato de zinco oral constitui alternativa
de tratamento.
Prognóstico
As crianças
com alterações puramente hepáticas
geralmente mostram boa resposta ao tratamento, desde que
ainda não tenham desenvolvido cirrose. Cerca de 50
por cento das crianças com alterações
neurológicas apresentam resposta satisfatória.
As com alterações hepáticas e neurológicas
associadas têm pior prognóstico.
O
objetivo do tratamento é remover o cobre dos tecidos
ou prevenir o seu acúmulo, no caso de pacientes que
ainda não desenvolveram os sinais da doença.
O rastreamento familiar para pesquisa de homozigotos deve,
portanto, ser feito imediatamente e o tratamento iniciado
mesmo em assintomáticos.
Síndrome de Lesch-Nyhan
Déficit de hipoxantina-guanina fosfo-ribosil
transferase (HGPRT), enzima que atua no metabolismo das
purinas. Como conseqüência há um aumento
importante da produção de ácido úrico
que resulta em várias complicações
por causa do aumento do ácido úrico no sangue.
Herança ligada ao cromossomo X.
As crianças
são aparentemente normais ao nascimento, mas durante
os primeiros meses de vida desenvolvem vômitos e passam
a eliminar cristais de cor laranja-marrom na urina. Diminuição
do tônus muscular e regressão psicomotora têm
início ainda no primeiro ano de vida. No final do
primeiro ano ou início do segundo, a diminuição
do tônus muscular é substituída por
movimentos involuntários. Com a evolução
da doença, surge aumento do tônus muscular
e, nesta fase, os movimentos involuntários tornam-se
progressivamente menos evidentes. Entre dois e quatro anos
de idade, às vezes mais tarde (até 16 anos),
aparece a automutilação (a criança
morde os lábios e as pontas dos dedos, determinando
perda de tecido) que, embora seja considerada sinal característico
da doença, está ausente em 15 por cento dos
casos.
Exames Complementares
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Níveis elevados de ácido
úrico plasmático.
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A análise enzimática pode
ser feita no sangue, fibroblastos e células amnióticas.
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Técnicas de genética molecular
podem ser úteis tanto para o diagnóstico
de indivíduos doentes quanto para a identificação
de portadores assintomáticos.
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A administração de alopurinol
oral diminui a concentração de ácido
úrico no sangue, prevenindo as complicações
renais, articulares e hematológicas, mas nenhum
efeito sobre o sistema nervoso central é observado.
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Talas bem ajustadas ao nível dos
cotovelos e adaptações na cadeira de rodas
podem reduzir as mutilações.
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Tentativa de modificação
do comportamento através de orientações
adequadas à família.
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Extração dentária
para os casos mais graves.
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