Manifestações Clínicas
As manifestações clínicas
mais freqüentes na mielomeningocele são: paralisia
de membros inferiores, distúrbios da sensibilidade cutânea,
úlceras de pele por pressão, ausência de controle
urinário e fecal e deformidades músculo-esqueléticas.
Nos outros tipos de espinha bífida as manifestações
são variáveis dependendo do grau e do nível
de envolvimento das estruturas nervosas.

Causas
O defeito ocorre como consequência da associação
de fatores genéticos e ambientais sendo que muitas causas
têm sido propostas tais como deficiência de folato
(forma natural de ácido fólico), diabetes materno,
deficiência de zinco e ingestão de álcool
durante os primeiros três meses de gravidez.

Incidência
Nos Estados Unidos a incidência é
estimada em 1: 1000 recém-nascidos. Não temos dados
estatísticos sobre a incidência de espinha bífida
no Brasil. A Rede SARAH admitiu 3.751 crianças com espinha bífida nos últimos 10 anos para programas de reabilitação.
Risco de
Recorrência
Para um casal que tem uma criança com
espinha bífida, o risco de recorrência é 1
a 5 por cento. Para um adulto com espinha bífida, a probabilidade
de recorrência em um de seus filhos é também
1 a 5 por cento. Se os dois pais têm espinha bífida,
as chances de terem uma criança com espinha bífida
aumentam para 15 por cento.
Prevenção
Várias pesquisas demonstraram que o ácido
fólico (uma vitamina B) desempenha papel importante na
redução da ocorrência de todos os tipos de
espinha bífida. Por isto, a Associação Americana
de Espinha Bífida recomenda a administração
oral de 0,4mg de ácido fólico por dia para toda
mulher em idade fértil e 4mg por dia para as com risco
aumentado para espinha bífida, iniciando um a três
meses antes da gravidez e mantendo durante o primeiro trimestre.
O ácido fólico é normalmente encontrado nos
polivitamínicos e os alimentos ricos em folato são:
vegetais de folhas verdes (espinafre ou brócolis) feijão,
frutas cítricas, fígado, castanhas e alimentos integrais.
O folato é perdido na estocagem e no cozimento o que torna
a complementação o meio mais seguro de prevenção.
Tratamento
da Mielomeningocele
Logo após o nascimento a criança
deve ser mantida com o abdome para baixo e a lesão deve
ser coberta com compressas não adesivas, suavemente colocadas,
embebidas em soro fisiológico, objetivando evitar o ressecamento.
Se a criança tiver que ser transportada, deve ser preparada
uma proteção de maneira a não permitir o
contato da placa neural com qualquer superfície a não
ser a compressa embebida no soro fisiológico. O fechamento
da mielomeningocele deve ser feito, de preferência, nas
primeiras 24 horas e as razões principais para o tratamento
cirúrgico são diminuir o risco de infecção
e preservar a função nervosa.
Hidrocefalia
Com o fechamento da mielomeningocele a maioria
das crianças desenvolvem aumento de líquido céfalo-raquiano
nas cavidades cerebrais (hidrocefalia). O líquido céfalo-raquiano
é o líquido que circula entre o cérebro e
os ossos do crânio, nas cavidades cerebrais e no canal medular
com a finalidade de nutrir e proteger o cérebro e a medula.
Com o aumento do líquido nas cavidades cerebrais, elas
aumentam de tamanho e exercem pressão sobre o tecido cerebral.
A pressão elevada faz com que o crânio aumente de
volume nas crianças que têm a fontanela aberta.
Das desordens associadas à mielomeningocele
(Tabela 2), a hidrocefalia é a de manifestação
mais precoce e o tratamento, quase sempre, demanda intervenção
cirúrgica. A característica clínica principal,
nos primeiros meses de vida, é o aumento do volume craniano
detectado através de medidas semanais ou até diárias
do perímetro cefálico, acompanhadas com o auxílio
de curvas apropriadas. A ultrassonografia é um exame de
fácil realização na criança que apresenta
a fontanela anterior aberta, e demonstra a dilatação
dos ventrículos (cavidades cerebrais) e malformações
como Arnold Chiari. Tão logo identificado o crescimento
anormal do crânio a criança deve ser avaliada pelo
neurocirurgião.
| Tabela
2. Condições Associadas à Mielomeningocele |
Desordem |
Características |
| Hidrocefalia |
Aumento anormal do perímetro cefálico
e da pressão intracraniana com declíneo intelectual
Pode estar presente ao nascimento, mas mais preqüentemente
surge após o fechamento da mielomeningocele
Cerca de 90% das crianças com mielomeningocele desenvolvem
hidrocefalia
Quanto mais alta a lesão medular, maior o risco
|
Malformação
Arnold-Chiari
|
Herniação das amigdalas
cerebelares, vermis cerebelar, parte do quarto ventrículo
e porção inferior da medula oblonga para dentro
do canal vertebral
Presente em quase todas as crianças com mielomeningocele
e principal causa de hidrocefalia nestas crianças
Estrabismo, respiração ruidosa, crises de apnéia,
distúrbios do sono, dificuldade para a alimentação
e alterações funcionais de membros superiores
sugerem malformação Arnold-Chiari sintomática
|
| Medula Presa |
Estiramento mecânico da medula causando
déficit neurológico progressivo
Pode causar alteração do nível sensitivo-motor,
da função vesical e desenvolvimento ou agravamento
de deformidades como pé equino-varo ou valgo e escoliose
|
| Siringomielia |
Acúmulo de líquido céfalo-raquiano
em cavitações dendro da medula
Pode ser secundária a mal funcionamento do sistema
valvular ou a malformação Arnold-Chiari
Pode causar desenvolvimento de escoliose, fraqueza muscular
cervical e de mãos ou dor lombar |
O tratamento cirúrgico consiste na instalação
de um sistema de derivação ventrículo-peritonial
(tubo longo e flexível conectado a uma válvula).
Este sistema possibilita a drenagem do excesso de líquido
céfalo-raquiano dos ventrículos para a cavidade
peritonial (espaço entre o abdome e os órgãos
digestivos) onde é reabsorvido.
Algumas crianças com deficiência
apenas discreta da absorção do líquido céfalo-raquiano
podem não desenvolver hidrocefalia sintomática por
meses ou anos. Nas crianças maiores, mudanças tais
como alterações da personalidade, da linguagem,
do desempenho escolar, cefaléia recorrente, convulsões,
estrabismo ou diminuição da acuidade visual sugerem
hidrocefalia ou obstrução do sistema valvular nas
já operadas.
O mal funcionamento do sistema valvular ocorre
com certa freqüência devido a obstrução
do catéter, desconecção, migração
ou comprimento inadequado em decorrência do crescimento.
A infecção é a principal causa de mal funcionamento
do sistema e quando há infecção a criança
geralmente apresenta febre, irritabilidade ou letargia (estado
de apatia ou sono profundo). A confirmação diagnóstica
é feita através do exame de líquido céfalo-raquiano
colhido do sistema valvular. As punções lombares
podem ser negativas mesmo na presença de infecção.
Os exames por imagem incluem radiografias da cabeça, pescoço,
tórax, abdome e pelvis objetivando avaliar o trajeto do
catéter. Quando há dor abdominal, a ultrassonografia
pode demonstrar coleções de líquido céfalo-raquiano
intra-abdominais. Havendo indicação, uma tomografia
computadorizada objetivando avaliar as cavidades ventriculares
e a implantação do sistema deve ser solicitada.
Nível
Funcional
A medula espinhal é organizada em segmentos
ao longo de sua extensão. Raízes nervosas de cada
segmento deixam a medula para inervarem regiões específicas
do corpo. Os segmentos da medula cervical (C1 a C8) controlam
os movimentos da região cervical e dos membros superiores;
os torácicos (T1 a T12) controlam a musculatura do tórax,
abdome e parte dos membros superiores; os lombares (L1 a L5) controlam
os movimentos dos membros inferiores; e os segmentos sacrais (S1
a S5) controlam parte dos membros inferirores e o funcionamento
da bexiga e intestino. Na espinha bífida, estando a medula
e as raízes nervosas impropriamente formadas, os nervos
envolvidos podem ser incapazes de controlar os músculos
determinando paralisias. Define-se como paralisia alta a paralisia
resultante de defeito medular começando ao nível
dos segmentos torácicos ou lombares altos (L1-L2), paralisia
média no segmento médio lombar (L3) e paralisia
baixa nos segmentos lombares baixos (L4-L5) ou sacrais. A posição
das raízes motoras lesadas na medula é chamada de
nível motor (Tabela 3) e sua
definição é importante para a classificação
funcional e o acompanhamento. Modificações do nível
motor podem sugerir progressão neurológica.
|
Tabela 3. Avaliação do Nível Motor |
Nível |
Músculo |
Movimento |
Teste |
| L1-L2 |
Psoas |
Flexão
do quadril |
Levantar
o joelho na posição sentada |
| L3-L4 |
Quadríceps |
Extensão
da perna |
Chutar
uma bola na posição sentada |
| L5-S1 |
Flexores
do joelho |
Flexão
do joelho |
Fletir
a perna na posição prona |
| L4-L5 |
Tibial
anterior |
Flexão
dorsal do pé |
Andar
no calcanhar |
| S1-S2 |
Panturilha |
Flexão
plantar do pé |
Andar
na ponta dos pés |
A associação do defeito da medula
com a hidrocefalia determina problemas secundários de gravidade
variável dependendo do nível da lesão e do
grau de envolvimento neurológico.
Bexiga Neurogênica
Crianças com bexiga neurogênica
costumam apresentar perdas constantes de urina e muitas vezes
não conseguem esvaziar todo o conteúdo da bexiga.
O acúmulo de urina facilita o aparecimento e a multiplicação
de bactérias. Se as defesas naturais da bexiga são
quebradas, a criança pode desenvolver infecção
urinária. As principais manifestações de
infecção urinária são: alterações
no aspecto da urina, febre, alteração do apetite
e às vezes dor lombar. Algumas crianças com bexiga
neurogênica apresentam refluxo de urina da bexiga para os
rins, e, infecções repetidas associadas a refluxo
podem, com o tempo, levar a sérios problemas renais.
A função básica da bexiga
é armazenar a urina que é produzida pelos rins e
eliminar esta urina quando sua capacidade é atingida. Para
que isto aconteça existem mecanismos que permitem que a
bexiga permaneça com pressão adequada durante toda
a fase de enchimento, sem que ocorra perdas. A parede da bexiga
é um músculo cuja função é
relaxar durante o enchimento e contrair durante o esvaziamento.
A uretra possui também um músculo,
o esfíncter uretral, que é responsável pela
continência da urina na bexiga. Normalmente ocorre um funcionamento
sinérgico entre a bexiga e a uretra, ou seja, durante o
enchimento a musculatura da bexiga está relaxada para acomodar
a urina proveniente dos rins enquanto o músculo do esfíncter
da uretra está contraído para evitar a saída
da urina coletada na bexiga. Ao contrário, quando a bexiga
se contrai para eliminar o seu conteúdo, o esfíncter
relaxa para permitir a eliminação da urina. Quando
este trabalho não ocorre de maneira integrada, acontece
o que se chama dissinergismo vésico-esfincteriano, situação
que contribui para a ocorrência de complicações.
Se a bexiga e o esfíncter se contraírem ao mesmo
tempo haverá um esforço muito maior da musculatura
da bexiga para conseguir vencer a resistência do músculo
da uretra. Este esforço leva, com o tempo, a um enfraquecimento
da parede da bexiga e a formação de divertículos
que acumulam urina residual, diminuindo a resistência a
infecções, favorecendo a formação
de cálculos e o refluxo da urina da bexiga para os rins
colocando em risco a função renal. Pode acontecer,
também, do esfíncter uretral ser incompetente para
conter a urina acumulada na bexiga e então a criança
apresenta gotejamento constante de urina com piora aos esforços.
Esta condição é chamada de incontinência.
Para que se possa realizar o tratamento adequado
da bexiga neurogênica é necessário um diagnóstico
correto do tipo de comportamento da bexiga e da uretra. A bexiga
pode ser espástica e pequena ou flácida e grande
dependendo do nível de envolvimento medular (Tabela
4). Nos dois tipos há perdas urinárias. Exames
de imagem (Tabela 5) e
o estudo urodinâmico auxiliam o diagnóstico. O estudo
urodinâmico registra o comportamento da bexiga durante as
fases de enchimento e esvaziamento indicando a pressão
intra-vesical, a pressão de perda, o fluxo, e se há
sinais de dissinergismo. Estes parâmetros auxiliam o estabelecimento
de critérios de tratamento e acompanhamento. Exames de
medicina nuclear (cintilografia renal ou cistografia isotópica)
são utilizados em situações especiais quando
se quer estudar melhor a função renal ou quando
a criança tem alergia ao contraste utilizado para alguns
exames radiológicos. Finalmente, alguns exames de laboratório
são indicados como o exame de urina e a depuração
de creatinina ou a dosagem de cistina C que permitem detectar
infecção e avaliar a função renal.
Estes exames são realizados periodicamente de acordo com
a necessidade.
|
Tabela 4. Classificação da Bexiga Neurogênica |
| Tipo |
Fisiopatologia |
Características |
Espástica
(Hiperreflexa) |
Lesões acima de T12
ou do cone medular preservando os reflexos medulares para
a bexiga |
Capacidade pequena
Contrações involuntárias rítmicas
(hiperrrefléxicas) não efetivas
Grande tendência ao refluxo vésico-ureteral com
rins aumentados de volume (hidronefrose) |
Flácida
(Arreflexa) |
Lesões ao nível
de L1 ou abaixo, envolvendo o cone medular e a cauda eqüina
Os neurônios motores para a bexiga estão destruídos
|
Ausência de contração
Parede vesical distendida
Volume residual aumentado
A pressão vesical não é aumentada
Infecções frequentes causadas pela dificuldade
de esvaziamento |
| Tabela
5. Exames de Imagem para Estudo das Vias Urinárias
|
Ultra-som |
Uretrocistografia |
Urografia
excretora |
Tomografia
computadorizada |
Uro-ressonância |
O tratamento da bexiga neurogênica visa
basicamente a continência urinária, evitar infecções
e preservar a função renal melhorando o prognóstico
e favorecendo a integração social. O esvaziamento
adequado da bexiga constitui a principal arma contra as complicações
e o método mais utilizado para esvaziamento é o
cateterismo intermitente. A técnica é simples e
pode ser ensinada aos pais ou à própria criança
dependendo da idade e do nível cognitivo. O cateterismo
é um procedimento no qual é introduzido um catéter
(tubo) limpo através da uretra, para esvaziar a bexiga,
a cada 3 ou 4 horas durante o dia. Se mesmo com o cateterismo
realizado adequadamente continua havendo perdas, existem medicações
que interferem na contração ou no relaxamento da
bexiga ou da uretra, que associadas ao cateterismo vão
permitir melhores condições de armazenamento e esvaziamento.
Estas medicações podem ser administradas por via
oral ou às vezes dentro da bexiga com bastante segurança.
Quando não há boa resposta ao tratamento clínico
recorre-se a procedimentos cirúrgicos que auxiliam a continência
da bexiga.
Intestino Neurogênico
A interrupção da continuidade dos
nervos determina, também, alterações do controle
intestinal. Nas lesões de nível mais alto o distúrbio
está, principalmente, relacionado com inatividade da parede
intestinal e nas lesões mais baixas com incontinência.
Em outras palavras, as crianças dependentes de cadeira
de rodas são mais propensas à constipação
crônica e as com paralisia apenas dos pés a eliminação
acidental de fezes. Estas disfunções devem ser tratadas
adequadamente, mas as condutas variam de acordo com o tipo de
envolvimento (Tabela 6).
|
Tabela. 6 Desordens do Esfíncter Anal na Espinha
Bífida |
Tipo |
Fisiopatologia |
Características |
Espástico
Reflexo cutâneo-anal positivo
|
Lesões acima de L2-L3
Bloqueio do controle dos neurônios motores superiores
Estabelecimento de um arco reflexo espástico abaixo
do bloqueio |
Relaxamento normal
do esfíncter interno
Esfíncter externo espástico mantendo ânus
fechado
O bolo fecal enche o reto até que a peristalse vença
a resistência e force a passagem de parte do conteúdo
Alguns pacientes são capazes de sentir a peristalse
retal (pré-defecação)
Tendência a constipação, megacolo e diarréia
paradoxa
Perda da sensação da pré-defecação
na presença de hiperdistensão do reto |
Hipotônico
com obstipação
Reflexo cutâneo-anal negativo
|
Mais observado nas lesões
sacrais baixas
Interrupção dos neurônios motores e sensitivos
inferiores antes de entrarem na medula
Perda da inervação autônoma do reto |
Esfíncter
anal externo fraco ou ausente
Críptas mucosas retais profundas facilmente visíveis
A parede do reto forma pregas (como uma sanfona) produzindo
um efeito valvular com obstrução acima desta
anormalidade (sentida ao toque).
Ausência da sensação da pre-defecação
porque o reto não enche |
| Hipotônico
com defecações frequentes |
Lesões abaixo de L2-3
Bloqueio do neurônio motor inferior
O plexo autônomo do arco reflexo ano-retal pode estar
intacto ou interrompido |
Esfincter externo
fraco com eliminação frequente de massas fecais
de pequeno volume
Esfincter interno normal ou fraco
Críptas mucosas retais profundas facilmente visíveis
Qualquer esforço que aumenta a pressão intra-abdominal
provoca eliminação das fezes presentes no reto
Ausência da sensação de reto cheio e da
pré-defecação |
Durante os primeiros anos de vida a incontinência
fecal não é grande preocupação, mas
é importante que as fezes sejam mantidas com consistência
normal. Assim que a criança completar dois a três
anos de idade o treinamento de controle das fezes deve ser iniciado.
Os objetivos do tratamento são, principalmente, prevenir
constipação e diarréia e controlar a incontinência.
Constipação é o acúmulo
de fezes no colo (segmento do intestino grosso). Obstipação
é uma constipação grave que determina dilatação
do colo. Quando o colo está dilatado a diarréia
por bypass (fezes líquidas intercaladas com fecalitos)
é observada. A constipação grave pode evoluir
para impactação que é o acúmulo de
fezes endurecidas no colo causando obstrução. Esta
condição manifesta-se clinicamente por vômitos,
dor e distensão abdominal. A constipação
deve, portanto, ser reconhecida e tratada antes que determine
dilatação do colo.
Além das alterações de
esfíncteres, outros fatores, como por exemplo pequena ingestão
de líquidos, alto consumo de leite ou produtos de leite
e pouca atividade física podem contribuir para o desenvolvimento
de constipação na criança com espinha bífida.
O melhor tratamento é uma dieta bem orientada se o colo
ainda não estiver dilatado. Dependendo no nível
da lesão (Tabela 6),
um bolo fecal volumoso estimula a sensação de pré-defecação.
Alimentos ricos em fibras tais como farinha integral, arroz integral,
aveia, amendoim, castanha de cajú, feijão, lentilha,
ervilha, milho e manga devem ser recomendados, porque produzem
bolo fecal volumoso. Os alimentos constipantes como por exemplo
pão branco, arroz branco, leite semi-desnatado, ovo cozido,
cenoura cozida, maçã, banana e gelatina devem ser
evitados. O volume de líquidos ingeridos nas 24 horas é
tão importante quanto a dieta e em muitas situações,
esta medida por si é suficiente para eliminar a constipação.
Na presença de megacolo, o programa de
treinamento para controle fecal deve ser suspenso e iniciado o
recondicionamento intestinal com dieta pobre em resíduos
(crackers, purê de batatas, suco de frutas, carne de frango
e peixe), óleo mineral oral e enemas de óleo mineral.
Em quatro a seis semanas o recondicionamento do megacolo pode
ser descontinuado e reinicia-se a dieta para prevenir constipação.
Dependendo do grau de dilatação do colo ou quando
não há resposta às medidas iniciais, é
conveniente que a criança seja avaliada por um especialista
em gastroenterologia infantil para orientação mais
segura quanto ao tratamento.
As crianças que não desenvolveram
megacolo ou que tiveram megacolo tratado, se em idade adequada,
podem iniciar o treinamento de controle fecal. O horário
para o esvaziamento intestinal deve ser sempre o mesmo e a hora
mais conveniente deve ser definida pela família ou pela
própria criança, de preferência cerca de 30
minutos após uma refeição reforçada.
A criança deve ser colocada no vaso, por cinco a 10 minutos,
com os quadrís fletidos, coxas pressionando o abdome e
os pés apoiados em uma superfície firme. Havendo
algum tônus anal e se a dieta for adequada a aquisição
do controle fecal é quase certa. Se as orientações
apresentadas não forem efetivas, a utilização
de recursos tais como medicações laxativas, estimulação
digital com luvas, supositórios e enemas serão necessários.
Todos estes procedimentos devem ser orientados pelo médico.
Úlceras por Pressão
Na grande maioria das crianças, as áreas
de apoio do peso do corpo como pés e região glútea
são insensíveis a dor, portanto, suscetíveis
ao desenvolvimento de úlceras por pressão. A úlcera
tem início com uma lesão de tecido gorduroso, com
a forma de um nódulo firme, sob uma área superficial
avermelhada, localizada, geralmente, em uma saliência óssea
ou área de maior pressão. O tratamento, neste estágio,
consiste apenas de manter a área comprometida livre de
pressão. O pediatra, enfermeiro ou terapeuta funcional
devem examinar as áreas suscetíveis com freqüência
e orientar os pais para que possam reconhecer as alterações
sugestivas de provável abertura de uma úlcera. Após
aberta a úlcera, o tratamento consiste de curativos e limpezas
periódicas. O local da lesão deve ser mantido totalmente
livre de pressão e muitas crianças com úlceras
perineais têm que permanecer deitadas sobre o abdome por
várias semanas. Quando há destruição
de tecidos profundos o tratamento cirúrgico deve ser recomendado.
O preparo pré-operatório inclui tratamento da infecção
e reposição de proteínas, vitaminas e minerais
(ferro e zinco). As úlceras da planta dos pés são
de difícil prevenção e tratamento. Elas têm
início com pequenas bolhas. Tão logo detectadas,
a criança deve deixar de usar talas ou de apoiar o pé
diretamente no chão até a cicatrização
completa.
Problemas Ortopédicos
As deformidades articulares são decorrentes
do desequilíbrio muscular determinado pelas paralisias
totais ou parciais. As cirurgias ortopédicas são
recomendadas em algumas situações, mas somente devem
ser indicadas se o objetivo for melhora da função,
como por exemplo, facilitar a deambulação, a posição
sentada ou o ajuste de aparelhos ortopédicos.
O pé torto é observado nas crianças
com nível motor lombar médio ou acima. Assim como
no pé torto congênito, a cirurgia é precedida
por trocas sucessivas de gesso e o objetivo do tratamento é
um pé plantígrado (que apoia a planta no chão),
no qual uma tala pode ser bem ajustada. Manipulações
suaves objetivando o estiramento da pele, tecidos moles e tendões
sobre o dorso do pé podem facilitar o procedimento cirúrgico.
As cirurgias ao nível dos joelhos são
menos freqüentes. As deformidades em extensão geralmente
resolvem com gessos seriados e exercícios passivos. Contraturas
importantes (acima de 30 graus) podem impedir o uso de aparelhos
longos e conseqüentemente a deambulação.
As crianças com nível lombar alto
ou torácico desenvolvem luxação ou contratura
de quadrís. A decisão de operar ou não estas
crianças é controversa, mas nos casos em que as
deformidades estão prejudicando a deambulação
ou a posição sentada, o tratamento cirúrgico
deve ser considerado.
A escoliose pode ser congênita, devida
a malformações vertebrais ou secundária a
desequilíbrio muscular nas lesões altas, siringomielia
ou medula presa (Tabela
2). O diagnóstico causal correto precedendo a cirurgia
para escoliose é importante no sentido de se evitar resultados
insatisfatórios ou complicações. Havendo
indicação para estudo da medula, a ressonância
magnética é o exame de escolha. Os coletes não
impedem a progressão de curvas paralíticas, mas
favorecem a postura na posição sentada, especialmente
em crianças com lesões torácicas altas. Os
melhores resultados com o tratamento cirúrgico são
alcançados com fusão vertebral posterior e anterior
simultânea.
Por causa da paralisia, as crianças com
mielomeningocele desenvolvem osteopenia (diminuição
da trama óssea) com risco de fraturas patológicas.
Como não sentem dor, elas andam sobre as fraturas e desenvolvem
hematomas. Neste estágio, apresentam febre e o quadro clínico
pode ser confundido com osteomielite. Uma radiografia simples
da área envolvida pode confirmar o diagnóstico de
fratura.
Deficiência
Cognitiva
Algumas estatísticas apontam que aproximadamente
65 por cento das crianças com mielomeningocele e hidrocefalia
tratada cirurgicamente têm inteligência normal. As
35 por cento restantes apresentam deficiência cognitiva,
a maioria de grau leve. Esses números devem variar de acordo
com a população estudada, pois o declínio
intelectual está principalmente relacionado com a hidrocefalia.
Crianças operadas precocemente têm melhor prognóstico
cognitivo. As com maior envolvimento cognitivo são, geralmente,
as não operadas, as que nasceram com perímetro cefálico
bem acima do normal ou as que desenvolveram infecção
do sistema nervoso central.
Em muitas crianças com hidrocefalia e
envolvimento cognitivo observa-se um comportamento hiperverbal,
que pode causar a falsa impressão de desenvolvimento cognitivo
normal. Mas, é importante que o envolvimento cognitivo
seja reconhecido o mais precocemente possível, para que
o programa de estimulação seja traçado de
acordo com as reais necessidades da criança contribuindo,
assim, para um melhor desempenho no futuro.
Embora a maioria das crianças com espinha
bífida tenham função intelectual normal ou
próxima do normal, muitas apresentam deficiências
neuropsicológicas como dificuldade de percepção,
atenção, concentração, memória
e para lidar com números. Dificuldades na escola são
portanto freqüentes e requerem atenção e orientação
adequada.
Alergia ao
Látex
Muitas crianças com espinha bífida
desenvolvem alergia ao látex, borracha natural, normalmente
encontrada nos balões, luvas para cirurgia e alguns tipos
de catéter. Os sintomas são lacrimejamento, coriza,
‘chiado no peito’ e lesões vermelhas na pele.
As crianças com alergia ao látex, com freqüência
são também alérgicas a banana, abacate, batata,
tomate, kiwi e mamão. Usar estes alimentos com precaução
e evitar o contato com látex pode prevenir o desenvolvimento
de reações graves.
Programa
de Reabilitação
Todas as crianças com mielomeningocele,
por causa da lesão congênita dos nervos e da medula,
apresentam alterações da força muscular em
membros inferiores, podendo haver, ainda, algum comprometimento
da musculatura do abdome e da coluna. Com relação
ao tratamento, é importante que pais e profissionais saibam
que a melhora da força dos músculos não depende
da quantidade ou do tipo de exercícios que a criança
realiza e sim do grau e nível da lesão da medula
e das raízes nervosas. Quanto menor for a alteração
do movimento, maior será a chance dos músculos serem
fortalecidos. Por outro lado, os músculos sem movimento
ou com fraqueza acentuada não podem ter sua força
aumentada.
Independente do tipo de exercícios e atividades
que a criança participe, as principais mudanças
na força dos músculos acontecem nos três primeiros
anos de vida. É também neste período que
a criança mais se desenvolve, e aquisições
motoras como sentar ou engatinhar dependem não somente
da maturação do sistema nervoso central, mas também
da força dos músculos do tronco e dos membros inferiores.
Praticamente em todas as crianças com mielomeningocele
essas aquisições ocorrem de forma mais lenta em
decorrência, principalmente, da fraqueza muscular e das
deformidades de coluna e de membros inferiores. Por exemplo, uma
criança com mielomeningocele pode conseguir engatinhar
somente aos dois anos de idade, ao invés de engatinhar
entre o nono e décimo mês como ocorre normalmente,
ou, nem mesmo vir a engatinhar nos casos em que a fraqueza dos
músculos for acentuada.
Durante o crescimento e desenvolvimento, os
objetivos do tratamento se modificam, e portanto, o programa de
tratamento se modifica em função das necessidades
de cada momento:
0 a 3 anos de idade
O tratamento tem início com explicação
aos pais sobre a natureza do problema, em linguagem clara e acessível.
A utilização de desenhos e figuras facilita a compreensão
das informações que se quer passar.
Neste primeiro momento, além dos cuidados
com relação à bexiga neurogênica, a
equipe deve dar especial atenção à estimulação
do desenvolvimento motor e cognitivo. Os pais são instruídos
quanto a exercícios e atividades de estimulação
do desenvolvimento para serem realizadas diariamente, sempre que
possível através de brincadeiras e no momento em
que a criança estiver pronta a colaborar, lembrando que,
o desenvolvimento processa-se das aquisições mais
simples para as mais complexas. Por exemplo, para a criança
conseguir sentar sem apoio é preciso que ela já
tenha aprendido a firmar a cabeça e a rolar.
Para evitar deformidades, recomenda-se a mobilização
das articulações e para algumas crianças
indica-se o uso de órteses. No caso da criança apresentar
fraqueza de tronco na posição sentada, indica-se
o ortostatismo (posição de pé), com a ajuda
de aparelhos objetivando melhorar a força dos músculos
do abdome e das costas. O ortostatismo com auxílio não
previne deformidades de quadrís e joelhos, não melhora
a força dos músculos das pernas e só deve
ser recomendado até no máximo quatro anos de idade.
As crianças que só conseguem se
locomover arrastando-se sentadas se beneficiam com a utilização
de um carrinho auto-propulsionável evitando assim lesões
de pele e facilitando a locomoção dentro de casa
e na escola. Este carrinho é indicado para crianças
de dois a quatro anos de idade. Após esta faixa etária
indica-se a cadeira de rodas infantil. A locomoção
é importante para o desenvolvimento da criança,
pois possibilita que ela explore o ambiente.
3 a 6 anos de idade
Neste momento os profissionais que acompanham
a criança devem definir a capacidade funcional tanto para
a locomoção quanto para as atividades de vida diária.
Através da avaliação de parâmetros
como desenvolvimento psicomotor, força muscular, deformidades,
equilíbrio de tronco e capacidade para ficar de pé,
o terapeuta funcional começa a ter noção
do potencial motor da criança. Algumas crianças
vão conseguir andar longas distâncias, e outras,
apenas dentro de casa ou na escola.
As crianças com potencial para deambulação
podem necessitar de auxílios como muletas, bengalas ou
andador nas fases iniciais do treinamento. As que têm fraqueza
muscular acentuada não podem andar e necessitam cadeira
de rodas infantil para facilitar a participação
na escola e atividades de lazer. Mesmo dentro de casa é
importante que utilizem a cadeira de rodas para prevenirem lesões
de pele que acontecem quando elas se arrastam no chão.
Para as crianças que andam, as órteses
e as cirurgias ortopédicas podem melhorar a marcha. As
órteses são indicadas para melhorar o posicionamento
das articulações evitando deformidades e com o objetivo
de que a criança alcance maior independência na marcha.
As cirurgias ortopédicas não promovem ganhos do
ponto de vista motor nas crianças com fraqueza muscular
acentuada.
As atividades orientadas pela terapia funcional
visando desenvolvimento e prevenção de deformidades
passam a ser substituídas por atividades físicas
tais como natação, basquete e dança em cadeira
de rodas. Estas atividades favorecem não somente o fortalecimento
da musculatura do tronco e de membros superiores, mas também
a integração social. Os pais devem estimular a criança
a participar das atividades de vida diária como alimentação,
vestuário, higiene e transferência (da cadeira de
rodas e para a cadeira de rodas) preparando-a para maior independência
no período escolar. Quando a criança recebe ajuda
excessiva, observa-se dependência mesmo para a realização
de tarefas para as quais ela tem capacidade para realizar.
6 a 12 anos de idade
As crianças que não conseguem andar
até os seis anos de idade provavelmente não vão
adquirir marcha, independente do tratamento fisioterápico,
uso de órteses ou cirurgias ortopédicas. Neste período
o enfoque deve ser, principalmente, o treino da independência
funcional tanto para as crianças que andam quanto para
as que não andam. Aspectos próprios da criança
ou do meio ambiente influenciam a independência. Os fatores
que dificultam a independência relacionados com a criança
são incoordenação de membros superiores,
déficit de equilíbrio, deformidades da coluna, obesidade
e atraso cognitivo porque dificulta a aprendizagem de atividades.
Quanto ao meio ambiente, o tamanho e o material da cadeira de
rodas e barreiras como degraus, portas estreitas ou terrenos acidentados
dificultam o uso da cadeira de rodas. O desempenho na escola é
preocupação importante nesta faixa etária
e as atividades esportivas devem fazer parte da vida da criança.
Visitas escolares possibilitam avaliação de barreiras
arquitetônicas e orientações quanto a colocação
de rampas de acesso e adaptações em banheiros. Os
professores devem ser esclarecidos quanto a patologia e estratégias
para lidar com a criança em sala de aula.
Algumas das crianças que andam podem
necessitar cirurgias nesta fase, principalmente para os pés,
objetivando melhorar o equilíbrio e o desempenho na marcha.
Adolescência
Nesta faixa etária, deve-se dar ênfase
à socialização. A participação
em esportes e atividades de lazer com amigos deve ser encorajada
e facilitada pelos pais e professores. É importante, também,
que o adolescente entenda o que é espinha bífida
e suas implicações.