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Traumatismo
Cranioencefálico
O traumatismo cranioncefálico (TCE) é importante causa de morte e de deficiência física e mental, superado apenas pelo acidente vascular cerebral (AVC) como patologia neurológica com maior impacto na qualidade de vida. Nos últimos 10 anos a Rede SARAH de Hospitais atendeu 5.133 pacientes com TCE e 20.422 pacientes com AVC. A idade média dos pacientes com TCE foi 30,9 anos e 77,3 por cento foram do sexo masculino. A idade média dos pacientes com AVC foi 60,3 anos e a proporção homem/ mulher foi igual a 1:1.
Lesões cerebrais ocorrem em todas
as faixas etárias, sendo mais comuns em adultos jovens,
na faixa entre 15 e 24 anos. A incidência é três
a quatro vezes maior nos homens do que nas mulheres. Os acidentes
de trânsito são a principal causa de lesão
cerebral vindo em seguida a violência pessoal.
Vários são os mecanismos responsáveis
pelos TCEs. Lesões corto-contusas, perfurações,
fraturas de crânio, movimentos bruscos de aceleração
e desaceleração e estiramento da massa encefálica,
dos vasos intracranianos e das meninges (membranas que revestem
o cérebro). As lesões podem ser focais ou generalizadas.
As focais localizam-se próximas à área
do trauma ou em áreas mais distantes.
Prevenção
A Rede SARAH tem um Centro
de Pesquisas (CEPES) que desenvolve estudos que
visam gerar conhecimentos que contribuam para a prevenção
da ocorrência das principais patologias atendidas
no SARAH. Pesquisas
de especial interesse para a prevenção
do neurotrauma já foram realizadas. A educação
no trânsito é a principal medida de prevenção
dos TCEs.
Classificação
Os TCEs podem ser classificados em três
tipos, de acordo com a natureza do ferimento do crânio:
traumatismo craniano fechado, fratura com afundamento do
crânio, e fratura exposta do crânio. Esta classificação
é importante, pois ajuda a definir a necessidade
de tratamento cirúrgico.
O traumatismo craniano fechado caracteriza-se
por ausência de ferimentos no crânio ou, quando
muito, fratura linear. Quando não há lesão
estrutural macroscópica do encéfalo, o traumatismo
craniano fechado é chamado de concussão. Contusão,
laceração, hemorragias, e edema (inchaço)
podem acontecer nos traumatismos cranianos fechados com
lesão do parênquima cerebral.
Os traumatismos cranianos com fraturas
com afundamento caracterizam-se pela presença de
fragmento ósseo fraturado afundado, comprimindo e
lesando o tecido cerebral adjacente. O prognóstico
depende do grau da lesão provocada no tecido encefálico.
Nos traumatismos cranianos abertos, com
fratura exposta do crânio, ocorre laceração
dos tecidos pericranianos e comunicação direta
do couro cabeludo com a massa encefálica através
de fragmentos ósseos afundados ou estilhaçados.
Este tipo de lesão é, em geral, grave e há
grande possibilidade de complicações infecciosas
intracranianas.
Patologia
Lesões Cutâneas e Fraturas
Os TCEs podem acometer a pele da cabeça, o crânio,
ou o cérebro em qualquer combinação.
As lesões cutâneas têm pouca morbidade
por si só, mas em geral estão associadas a
lesões do crânio e do tecido cerebral, além
de poderem ser causa freqüente de hemorragia e infecção.
As fraturas do crânio podem ser da
convexidade do crânio ou da base. As da convexidade
podem ser lineares, deprimidas, ou compostas. As fraturas
lineares são comuns e não requerem tratamento
específico. Entretanto, são sinais de alerta,
podendo ser indicativas de que o TCE teve certa gravidade.
Por isto, o paciente com esse tipo de fratura deve ser cuidadosamente
observado por 12 a 24 horas na fase aguda. Exames neurológicos
devem ser feitos periodicamente neste período, e
deterioração do nível de consciência
ou alterações ao exame físico podem
ser indicativos da presença de hematoma intracraniano.
Fraturas deprimidas do crânio são
o resultado de lesões provocadas por objetos de baixa
velocidade. A tábua interna do crânio sofre
maior dano do que a tábua externa. Essas fraturas
podem determinar laceração da membrana de
revestimento externa do cérebro ou do tecido cerebral.
O tratamento cirúrgico deve ser considerado, sobretudo
se a depressão for maior que a espessura do osso
do crânio.
Fraturas compostas são caracterizadas
pela laceração do osso. O tratamento é
essencialmente o mesmo das fraturas simples, lineares: tratamento
adequado das feridas cutâneas com fechamento da laceração.
As fraturas da base do crânio são as mais freqüentes
e, como as fraturas lineares, são indicativas de
que o TCE foi intenso. Elas podem levar a fístulas
liqüóricas, sendo fontes potenciais de meningite,
abscesso, e outras infecções intracranianas.
As fraturas da base também podem lesar os nervos
cranianos, cujos forames estão aí localizados.
Lesões
Encefálicas
As lesões encefálicas podem
ser classificadas em primárias e secundárias.
As lesões primárias são o resultado
do impacto, e geralmente estão presentes já
no momento do acidente. As lesões secundárias
são aquelas de curso progressivo, ocorrendo como
conseqüência de hematoma, edema, isquemia ou
hipóxia, podendo levar a lesões neurológicas
tardias.
O tecido cerebral pode ser lesado diretamente
no lugar do impacto (lesão por ‘golpe’),
ou em pontos diametralmente opostos ao impacto (lesão
por ‘contra-golpe’). As porções
inferiores dos lobos frontais e temporais são as
áreas mais acometidas pelas lesões por ´contra-golpe’,
pois os ossos da base do crânio, sobretudo nas fossas
temporal e frontal, apresentam superfícies rugosas,
cheias de acidentes anatômicos.
Tipos
de Lesões Cerebrais
Concussão é o traumatismo
craniano fechado sem lesão estrutural macroscópica
do encéfalo. Há alteração temporária
da função cerebral, mais evidente logo após
o traumatismo, tendendo a melhorar em 24 horas. Pode ser
acompanhada por bradicardia, hipotensão e sudorese.
A concussão caracteriza-se pela perda de consciência,
freqüente, mas não invariável, amnésia
(esquecimento) do evento, letargia temporária, irritabilidade,
e disfunção de memória. Não
tem curso fatal. A perda de consciência deve ser breve,
sendo definida arbitrariamente, com duração
inferior a 6 horas.
Lesão axonal difusa ocorre quando
a perda de consciência é superior a 6 horas.
Caracteriza-se por estiramento dos neurônios em decorrência
dos movimentos súbitos de aceleração
e desaceleração. Pode ser dividida de acordo
com a duração do coma e o prognóstico
depende da sua duração. Os comas mais prolongados
podem estar associados a sinais focais ou edema, e têm
prognóstico mais desfavorável. As lesões
são microscópicas, e, em geral, afetam o corpo
caloso e o tronco cerebral ou são difusas.
Tumefação cerebral pode ser
devida a edema cerebral (aumento do teor de água
extravascular) ou por aumento da volemia do cérebro
pela vasodilatação anormal. A tumefação
pode ser difusa ou focal.
Contusão cerebral caracteriza-se
por lesão estrutural do tecido encefálico
e pode ser demonstrada pela tomografia computadorizada de
crânio como pequenas áreas de hemorragia. Não
há lesão da pia-aracnóide (membranas
mais internas de revestimento do cérebro). Edema
cerebral é comum. As contusões, em geral,
produzem alterações neurológicas que
persistem por mais de 24 horas. As manifestações
clínicas são déficits neurológicos
focais, como paralisias, transtornos da linguagem, alterações
da memória e do afeto e, mais raramente, alterações
visuais. Os déficits neurológicos podem persistir
como seqüelas.
Lacerações do tecido cerebral,
em geral, ocorrem quando há fraturas, apesar de que
movimentos bruscos de aceleração e desaceleração
também podem levar a perda de substância encefálica.
Laceração das meninges e dos vasos intracranianos
acompanham esse tipo de lesão e, geralmente, levam
a hemorragia intracraniana. Déficits neurológicos
sempre estão presentes, e deixam seqüelas, apesar
de ocorrer certa melhora com o tempo.
Hematoma epidural (localizado entre a calota
craniana e a membrana mais externa de revestimento do cérebro)
ocorre entre 1 a 3 por cento dos TCEs. São lesões
associadas a fraturas que laceram uma das artérias
ou veias meníngeas. A apresentação
clínica é variável. Em geral há
perda da consciência logo após o trauma com
recuperação após alguns minutos ou
horas. Entretanto, posteriormente, o paciente começa
a ficar letárgico e ocorre deterioração
neurológica, podendo haver herniação
cerebral se não tratado. Alterações
pupilares e hemiparesia (dificuldade de movimento em um
lado do corpo) contralateral ao local da lesão, associadas
a alterações da consciência são
os achados mais comuns ao exame físico. Cirurgia
para drenagem do hematoma é o tratamento de escolha.
Hematoma subdural agudo (localizado entre
as membranas que revestem o cérebro) é encontrado,
freqüentemente, em pacientes que sofrem traumatismo
decorrente de aceleração e desaceleração
em altas velocidades. Pode ser simples e tem bom prognóstico
quando não há lesão cerebral associada.
Hematomas subdurais complicados são acompanhados
de laceração do parênquima e dos vasos.
O quadro clínico se caracteriza, geralmente, por
coma e por diversos graus de alterações focais.
O tratamento pode ser cirúrgico ou não, dependendo
do tipo e da extensão das lesões.
Hematoma subdural crônico tem apresentação
tardia, pelo menos 20 dias depois do trauma. É mais
comum em crianças e em idosos. Alcoolismo, epilepsia,
uso de anticoagulantes, diálise renal predispõem
os pacientes a terem essa complicação. O quadro
clínico é insidioso, caracterizado por confusão,
distúrbios de memória, apatia e alteração
de personalidade. Dor de cabeça é comum. O
diagnóstico é feito através da tomografia
computadorizada de crânio. Em geral, o tratamento
é cirúrgico.
Diagnóstico
História clínica
As informações sobre o evento
traumático devem ser colhidas de observadores. Deve-se
procurar saber sobre a causa do traumatismo, a intensidade
do impacto, a presença de sintomas neurológicos,
convulsões, diminuição de força,
alteração da linguagem, e, sobretudo, deve-se
documentar qualquer relato de perda de consciência.
A amnésia para o evento é
comum nas concussões. Pode haver, também,
perda de memória retrógrada (para eventos
ocorridos antes do trauma) ou anterógrada (para os
eventos que se sucederam logo após o trauma). A amnésia
é característica dos TCEs que cursam com perda
de consciência. Amnésia cuja duração
é superior a 24 horas é indicativa de que
o TCE foi mais intenso, e pode estar relacionada com prognóstico
menos favorável. A amnésia de curta duração
não tem maior significado clínico.
A alteração da consciência
é o sintoma mais comum dos TCEs. A breve perda de
contato com o meio é característica da concussão.
O coma pode durar horas, dias ou semanas, dependendo da
gravidade e localização da lesão. Lesões
difusas do encéfalo ou do tronco encefálico
podem levar a comas prolongados, sobretudo quando há
contusão ou laceração de amplas áreas
cerebrais, tumefação ou edema importante.
A melhora do nível de consciência tem relação
direta com o grau de lesão.
Dor de cabeça
intensa, sobretudo unilateral, pode indicar lesão
expansiva intracraniana, sendo necessária investigação
neurológica cuidadosa. Cefaléia intensa na
região occipital pode ser indicativa de fratura do
odontóide (estrutura da secunda vértebra que
se articula com a primeira).
Exame
Físico
O exame físico inicial, na fase
aguda, deve ser rápido e objetivo. É importante
lembrar que pacientes com TCE são politraumatizados,
sendo freqüente a associação com traumatismos
torácicos, abdominais e fraturas. Hipóxia,
hipotensão, hipo ou hiperglicemia, efeito de drogas
narcóticas, e lesões instáveis da coluna
vertebral devem ser procurados e convenientemente tratados.
O exame da pele da cabeça deve ser
feito com cuidado. Fraturas no crânio devem ser procuradas.
Fraturas da base do crânio podem ser suspeitadas pela
presença de sangue no tímpano e pela drenagem
de líquido cefalorraquidiano pelo ouvido ou nariz.
O propósito do exame neurológico
inicial é determinar as funções dos
hemisférios cerebrais e do tronco encefálico.
Os exames subseqüentes são importantes para
verificar a evolução do paciente, se está
havendo melhora ou deterioração do seu quadro
clínico. Escalas neurológicas foram desenhadas
para permitir quantificar o exame neurológico. A
escala de coma de Glasgow é uma medida semiquantitativa
do grau de envolvimento cerebral, que também orienta
o prognóstico (Tabela 1). Entretanto, não
é válida para pacientes em choque ou intoxicados.
Existe uma escala modificada para crianças (Tabela
2). A presença de traumatismo dos olhos e da medula
espinhal dificulta a avaliação. A escala consiste
em pontuar os achados do exame neurológico, avaliando
a resposta verbal, a abertura dos olhos, e a resposta motora.
|
Tabela 1. Escala de Coma de Glasgow |
Parâmetros |
Escore |
| Melhor resposta
verbal |
Nenhuma
Sons incompreensíveis
Palavras inadequadas
Confusa
Orientada |
1
2
3
4
5 |
| Abertura
dos olhos |
Nenhuma
Resposta à dor
Resposta à fala
Espontânea |
1
2
3
4 |
| Melhor
resposta motora |
Nenhuma
Descerebração (extensão anormal
dos membros)
Decorticação (flexão anormal dos
membros superiores)
Retirada
Localiza o estímulo doloroso
Obedece ao comando verbal |
|
|
TOTAL |
15 |
A soma de pontos para um paciente
completamente lúcido e orientado é 15. A soma
para um paciente afásico, imóvel e sem abertura
dos olhos é 3.
|
Tabela 2. Escala de Coma de Glasgow Pediátrica |
| Medida |
Exemplos
> 1 ano |
<
1ano |
Escore |
| Abertura dos
olhos |
Espontaneamente
Ao comando À dor
Nenhuma resposta |
Espontaneamente
Ao grito À dor
Nenhuma resposta |
4
3
2
1 |
| Melhor resposta
verbal |
Orientada
Desorientada
Palavras inapropriadas
Sons incompreensíveis
Nenhuma resposta |
Apropriada
Palavras inapropriadas
Choro
Gemidos
Nenhuma resposta |
5
4
3
2
1 |
Melhor resposta
motora |
Obedece aos
comandos
Localiza a dor
Flexão à dor
Extensão à dor
Nenhuma resposta |
Localiza a dor
Flexão à dor
Extensão à dor
Nenhuma resposta |
5
4
3
2
1 |
| Escores
Totais Normais |
<
6m
6-12m
1-2a
2-5a
> 5a |
12
12
13
14
14 |
O exame neurológico deve incluir,
ainda, avaliação dos nervos cranianos e exame
de fundo de olho (para verificar a presença de edema
de papila presente no edema cerebral ou na hipertensão
intracraniana). Os reflexos pupilares e os movimentos oculares
devem, também, ser avaliados.
Exames
Complementares
- Radiografia de crânio nas incidências
ântero-posterior e lateral. As fraturas da convexidade
são geralmente bem visíveis, mas as fraturas
da base podem ser vistas em menos de 10% dos casos.
- A tomografia computadorizada de crânio
pode demonstrar fraturas, hematomas intra e extra-cerebrais,
áreas de contusão, edema cerebral, hidrocefalia,
e sinais de herniação cerebral.
- A ressonância magnética
permite verificar a presença de lesões de
difícil visualização à tomografia
computadorizada, como hematomas subdurais, além
de definir melhor a presença de edema. Entretanto,
é um exame prolongado, o que dificulta a sua realização
de rotina em pacientes com TCE.
- A angiografia cerebral é indicada
para avaliar lesões vasculares no pescoço
ou na base do crânio.
SÍNDROMES NEUROLÓGICAS
APÓS TCE
Após resolução das
urgências clínicas e neurológicas que
ocorrem nas fases iniciais do atendimento a pessoas que
sofreram TCE, inicia-se um longo processo de recuperação
que tem características peculiares e que pode esbarrar
com complicações muitas vezes inevitáveis
relacionadas ao traumatismo.
Epilepsia
A epilepsia é uma das complicações
mais comuns do TCE. Cerca de 5% dos pacientes desenvolvem
crises epilépticas recorrentes. Esta freqüência
varia de acordo com diversos aspectos relacionados ao tipo
de lesão cerebral, costumando ser mais alta em lesões
mais graves. Elas incidem mais na primeira semana, quando
são chamadas crises precoces ou da fase aguda. Quando
ocorrem após a primeira semana, são chamadas
de tardias. Dos pacientes que apresentam crises no período
tardio, 50% costumam tê-las dentro do primeiro ano
após o TCE, 25% dentro de 4 anos, e o restante nos
anos subseqüentes. O tratamento não difere das
demais epilepsias (drogas antiepilépticas habituais).
Em alguns casos não é possível controlar
as crises com medicamentos.
O uso de antiepilépticos de maneira
inadequada é relativamente freqüente. Não
raramente, pacientes que nunca tiveram crises epilépticas
ou as apresentaram apenas na fase aguda (primeira semana
após o acidente) permanecem usando medicações
antiepilépticas por tempo prolongado. Com base em
estudos realizados até o momento, não há
indicação precisa para esse uso. Além
das drogas não atuarem como profiláticas,
evitando as crises, elas têm efeitos colaterais, e
podem retardar os mecanismos de regeneração
do cérebro.
Como as epilepsias relacionadas com lesão
cerebral identificável, a epilepsia pós-traumática
costuma ser persistente. Mesmo após um determinado
período sem crises, pode haver recorrência.
Isto significa que, muitas vezes, as medicações
para controle de crises devem ser mantidas por períodos
mais longos do que o habitual, mesmo havendo remissão
por mais de dois anos.
Alterações
Motoras
Quando a lesão está localizada
na área responsável pelo início do
movimento voluntário (trato piramidal) os músculos
são espásticos (têm tônus aumentado)
e os reflexos tendinosos são exacerbados. Os pacientes
com envolvimento das pernas, dos braços, do tronco
e do pescoço (envolvimento total) têm tetraplegia
espástica e são mais dependentes da ajuda
de outras pessoas para alimentação, higiene
e locomoção. Havendo recuperação
cerebral, mesmo pacientes com tetraplegia espástica
grave, nas semanas que se sucedem ao acidente, podem apresentar
melhora gradativa do quadro motor, chegando a readquirir
independência total. Na hemiplegia espástica,
observa-se alterações do movimento em um lado
do corpo, como por exemplo, perna e braço à
esquerda. Este tipo de envolvimento tem prognóstico
motor melhor. Na monoplegia, condição mais
rara, somente um membro está envolvido.
Quando a lesão está localizada
nas áreas que modificam ou regulam o movimento (trato
extra-piramidal), surgem movimentos involuntários
(fora de controle) e os movimentos voluntários são
prejudicados. A freqüência de movimentos involuntários
como seqüela de TCE não é bem conhecida.
A ataxia está relacionada com lesões
cerebelares ou das vias cerebelares e manifesta-se por déficit
de equilíbrio e incoordenação. O cerebelo
pode sofrer lesão direta e, neste caso, geralmente
observa-se dificuldade de coordenação localizada.
A ataxia generalizada costuma estar relacionada com anóxia
cerebral ocorrida durante os períodos iniciais após
o acidente. Muitos pacientes com tetraplegia espástica
nas fases mais agudas do trauma evoluem para um quadro atáxico
com o passar do tempo.
Hidrocefalia
A hidrocefalia (aumento do volume de líquido
céfalo-raquiano nas cavidades cerebrais) manifesta-se
com piora do quadro neurológico, dor de cabeça,
vômitos, confusão mental e sonolência.
Mais tardiamente, observa-se dificuldade de raciocínio,
apatia e lentificação psicomotora. Em alguns
casos, pode ocorrer hidrocefalia com pressão normal,
decorrente de redução da capacidade de absorção
do líquido céfalo-raquiano, que é continuamente
produzido. O tratamento da hidrocefalia, quando necessário,
consiste em medicações que reduzem a produção
de líquido céfalo-raquiano ou cirurgias que
aumentam sua drenagem.
Disfunção
Autonômica
Em pacientes com TCE grave podem ocorrer
episódios súbitos de sudorese, hipertensão
arterial, taquicardia, febre e extensão dos membros.
Estas crises são ocasionadas por destruição
de algumas conexões entre o córtex cerebral
e o hipotálamo e geralmente são desencadeadas
por estímulos dolorosos, incluindo distensão
da bexiga ou dos intestinos. O tratamento consiste em evitar
esses estímulos. Algumas drogas podem ser úteis
no alívio dessas crises.
Lesão
de Nervos Cranianos
O TCE pode envolver alguns dos nervos cranianos.
O nervo olfatório pode ser lesado em cerca de 5%
dos pacientes, acarretando anosmia (perda do olfato). Metade
destes pacientes se recupera totalmente. A recuperação
geralmente ocorre dentro de 2 meses, podendo haver uma fase
de percepção distorcida dos cheiros. Não
há tratamento específico. O nervo óptico,
que transmite a visão do olho até o cérebro,
costuma ser afetado em 1 a 2% dos pacientes, ocasionando
perda visual parcial ou total. A cegueira é reversível
em menos da metade dos casos. A lesão dos nervos
responsáveis pela movimentação dos
olhos (nervos 3, 4 e 6, também chamados oculomotor,
troclear e abducente), ocorre nas frequëncias respectivas
de 3%, <1% e 5% dos casos. O que se observa é
um desalinhamento dos olhos (estrabismo) que ocasiona visão
dupla. Estas alterações podem desaparecer
dentro de um período de 1 ano. Não se observando
recuperação dentro deste prazo, pode ser feita
correção cirúrgica. O nervo trigêmio,
responsável principalmente pela sensibilidade da
face, pode ser envolvido em alguns casos, ocasionando dormência
e dor facial. Os nervos 7 (facial, cuja principal função
é movimentar os músculos da face) e 8 (responsável
pela audição e equilíbrio) podem ser
envolvidos quando há fratura da parte petrosa do
osso temporal. Como nos outros casos, estas alterações
também podem ser reversíveis.
Alterações
Cognitivas e Neuropsicológicas
O grau de envolvimento cognitivo (capacidade
de adquirir conhecimento) pode abranger desde pacientes
sem nenhuma resposta até pacientes nos quais as dificuldades
só podem ser identificadas através de testes
específicos.
Por causa das relações entre
o cérebro e os ossos do crânio, as regiões
cerebrais mais freqüentemente lesadas após TCE
são os lobos frontais e temporais. Em virtude disso,
as dificuldades mais comumente observadas são aquelas
relacionadas a funções desempenhadas por estas
regiões do cérebro (memória, planejamento,
funções executivas e comportamento). No entanto,
qualquer área do cérebro pode ser comprometida
e como conseqüência, qualquer tipo de alteração
neuropsicológica pode ser observado, como: dificuldade
na linguagem, leitura, escrita, percepção
espacial e reconhecimento do corpo. As deficiências
cognitivas e neuropsicológicas costumam ter recuperação
significativa nos primeiros 6 a 12 meses. Após este
período, os sinais de melhora surgem bem mais lentamente
e o período de recuperação pode prolongar-se
por meses ou anos. Em crianças, a recuperação
costuma ser mais significativa e prolonga-se por mais tempo
do que no adulto.
Alterações
de Comportamento
Alterações de comportamento
como apatia, desinibição, impulsividade, agressividade,
perseveração, irritabilidade, ansiedade, distúrbio
do sono, psicose e depressão podem estar presentes.
Assim como nas alterações cognitivas e neuropsicológicas,
as alterações comportamentais podem se tornar
mais leves e desaparecerem com o passar do tempo. Nos casos
mais graves, o tratamento requer abordagem psicológica
e medicamentosa.
Outras
Complicações
Após um traumatismo cranioencefálico
podem acontecer complicações neuroendócrinas
decorrentes de alterações do controle hormonal
do organismo, que depende, principalmente, do cérebro.
Podem ocorrer situações como diabetes insipidus
(o principal sintoma é eliminar grandes quantidades
de urina), alterações relacionadas com a regulação
hipotalâmica (como por exemplo hiperfagia) e transtornos
menstruais. Outra alteração freqüentemente
observada é a formação de osso em locais
indevidos como quadril, cotovelo e ombro (ossificação
heterotópica). A incontinência urinária
é, geralmente, secundária à desinibição,
mas por vezes tem como causa uma bexiga hiperreflexa (que
apresenta contrações anormais). Disfagia (dificuldade
de deglutição), muitas vezes reversível,
pode estar presente nos pacientes com envolvimento mais
grave.
Prognóstico
O prognóstico, ou previsão
do grau de recuperação dos pacientes, é
bastante variável. Talvez, o principal fator prognóstico
seja a gravidade do trauma. A gravidade tem sido aferida
de diversas formas, como a duração da amnésia
pós-traumática, o período de tempo
transcorrido até que o paciente comece a responder
a comandos verbais e o comprometimento do nível de
consciência nas horas que sucedem ao acidente. O parâmetro
mais usado é a aferição da gravidade
e duração do comprometimento da consciência
após o TCE, que é feita através da
Escala de Coma de Glasgow. Essa escala atribui pontos ao
desempenho do paciente na abertura dos olhos, nas respostas
verbais e nas respostas motoras, atingindo um total que
pode variar entre 3 pontos (nenhuma resposta) e 15 pontos
(resposta normal) (Tabela1). Baseado nessa
escala, pacientes com pontuação inicial entre
3 a 8 são classificados como graves, aqueles com
pontuação entre 9 a 12 como moderados e os
demais como leves. Algumas vezes, pacientes com TCE leve
ou moderado apresentam lesões focais detectadas através
do exame neurológico ou radiológico, o que
torna o prognóstico pior. Com base nessa classificação
de gravidade do TCE, é possível se fazer algumas
considerações em termos de prognóstico:
o TCE grave geralmente cursa com mortalidade na fase inicial
de mais de 50% e dentre os sobreviventes, 30% tem uma recuperação
regular ou boa após 6 meses. O TCE moderado tem mortalidade
de menos de 10% e muitos pacientes ficam apenas com seqüelas
leves. O TCE leve raramente resulta em morte e o paciente
geralmente é capaz de retomar uma vida normal.
A avaliação do prognóstico
não é precisa, sendo freqüentes os casos
de recuperação melhor ou pior do que o previsto.
Além da Escala de Coma de Glasgow, outros fatores
têm sido relacionados a um melhor prognóstico:
idade <40 anos, TCE único, duração
do estado de coma <2 semanas, amnésia pós-traumática
<2 semanas, ausência de lesões intracerebrais
expansivas, ausência de hipertensão intracraniana,
ausência de isquemia ou hipóxia cerebral, ausência
de atrofia cerebral e reabilitação precoce.
Não há dúvida quanto
à capacidade de recuperação cerebral
após as lesões sofridas em virtude de traumatismo.
Os mecanismos dessa recuperação é que
não são completamente conhecidos. Existem
algumas teorias a respeito. Uma vez que o paciente tem seu
quadro clínico e neurológico estabilizado
após o TCE, o cérebro passa a ter condições
‘ideais’ de funcionamento, que independe de
modificações intrínsecas. Os mecanismos
através dos quais o cérebro passa a recuperar
funções podem ser, entre outros, os seguintes:
áreas não lesadas podem exercer funções
de áreas lesadas, conexões perdidas podem
se restabelecer e pode haver reorganização
dos neurotransmissores. Muito se tem pesquisado sobre este
tema e espera-se que haja cada vez mais recursos a oferecer
às pessoas que sofreram traumatismo cranioencefálico.

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